domingo, 2 de outubro de 2011

Adoro a ideia do encontro, seja para namorar, trocar carícias, transar ou compartilhar momentos bacanas. O problema que há séculos estraga a utilidade dos encontros não é o amor, mas o romance.
Aliás, para ser justo, não propriamente o romance, mas o modelo de relacionamento que o veste.
Devido a uma série de erros de definição, amor e romance são equivocadamente vistos como a mesma coisa, quando na verdade não são.
Para piorar, há uma imensa horda de carentes alimentados por folhetins e comédias românticas, acreditando piamente que viver um romance é a síntese do que existe de melhor na vida. É justamente nesse ponto que os envolvidos passam a ser ver como propriedade um do outro, em alguns casos, até com certificado, firma reconhecida e autenticada, tal como a gente faz quando compra um automóvel ou um imóvel.
Certamente, o tesão e encantamento nesse primeiro momento, não permite a ninguém enxergar muito bem o que significa virar propriedade de uma outra pessoa.


As passionalidades do romance: muda o figurino, a história é que não muda.

Ser tornar objeto de posse sob as bênçãos do amor, automaticamente produz uma reserva de ciúme que vai se acumulando num cantinho do fígado, local apropriado, já que o ciúme é uma bile negra, uma peçonha altamente tóxica que ao entrar na mente dos amantes é capaz de fazer o mais doce dos enamorados se transformar num agente disposto a tudo para não perder para outro, o seu objeto de afeto e caso isso aconteça, as consequências para todos podem vir a ser desastrosas, como pode ser medido pelo número de assassinatos de mulheres no Brasil, onde na totalidade dos casos, o autores são companheiros e ex-companheiros, gente como qualquer um, que atuando segundo modelo possessivo aceito, fez em épocas de paz, juras acetinadas, tirou fotos exibindo ternura, fez planos a longo prazo, deu caixa de bombom junto com coração de pelúcia, comemorou períodos de união e certamente jurou um amor que julgou que jamais terminaria.

sábado, 1 de outubro de 2011

Acabei de ler um artigo na Bravo falando sobre uma provável crise de alguns racionalistas de carteirinha. O texto cita o maior representante do chamado movimento Dogma 95, Lars Von Trier e seu último trabalho, o belíssimo apocalíptico Melancolia. Pessoalmente eu não acho que o racionalismo esteja em crise, talvez o que temos vivido hoje seja uma reorganização de um estado que sempre esteve presente desde o começo da civilização, onde crédulos em pânico buscam avidamente seguir alguma coisa que aplaque esse nosso pavor universal da aniquilação repentina ou que garanta refrigério pessoal ou familiar numa pós-existência material.
Depois que a rede deu a todos espaço e coragem para defenderem suas convicções e atrair prosélitos, a voz racionalista deixou de ser a única a ecoar pelos megafones (leia-se; editoras, jornais, radios, TVs e outras mídias) no vasto e medonho deserto daquilo que jamais teremos controle; o acaso.



Ao contrário do que foi no século XX, a “impopularidade” dos racionalistas atualmente, talvez se deva ao fato de que ninguém gosta muito de ser lembrado que a humanidade é extremamente vulnerável e não há promessa, ritual, oração, oferenda, reza forte ou pensamento positivo que possa salvá-la hora H.

sábado, 17 de setembro de 2011


Foto: Peter Schmid / Cortesia de Lee Berger / U. Witwatersrand / AP
O medo e a curiosidade sempre foram um forte fetiche entre humano. Imaginem só viver num mundo metade do tempo claro e a outra metade numa escuridão cheia de urros, uivos, garras, caninos. Foi nesse mundo-cão que curiosos monozinhos medrosos, gregários e curiosos começaram a andar eretos. Nesse vasto lugar perigoso, o problema de vida ou morte era saber o que fazer ao se perceber desprovido de garras, caninos, chifres, asas, e pior, com filhotes frágeis agarrados na teta, que levavam um tempão pra andar ereto e outro tanto pra mostrar que sabia se virar quase sozinho.
A solução foi botar para funcionar a cabeça que comandava uma mãozinha com polegar opositor e começar a inventar. Pegou uma pedra grande para quebrar semente dura até a pedra rachar em dois pedaços de lâmina afiada e cortante. Sem querer, alguém passou o dedo no fio e cortou o dedo, saiu sangue e powww!!!! Uma coisa vai encaixando na outra e depois de uns tempos de tentativa e erro, sacou-se que ser criativo pode ser mais poderoso que ter garras, caninos, asas, chifres, tromba ou enxergar muito bem na escuridão.
A inventividade, contudo, só resolvia uma parte do problema, ainda tinha o medo duma Coisa que todo mundo sabia que existia, só não sabia o nome e nem de onde vinha. Só sabia que a Coisa sempre vinha! Nem sempre pelas garras, pelos caninos, mas às vezes do corpo ativo falhando, do pelo embranquecendo, depois duma queda, dum corte mal cheiroso enegrecido, dum osso quebrado. Estando acordados ou dormindo a coisa vinha, pegava e levava para onde ninguém sabia.
A criatividade ajudou a dar um nome a essa Coisa e com o tempo, um monte de coisas iam ganhando nome. A criatividade é ótima para dar nomes e formular perguntas, mas é melhor ainda para inventar as respostas. Nessa época, o hábito de inventar respostas ainda não tinha nome, mas com o tempo passou a ter. Chamaram de totem, culto, credo, “pensamento mágico”, religião, filosofia, iluminação e recentemente surgiu um novo nome. Um que agrada aos que duvidam e desagrada aos que temem que ele mate deuses. Só que ninguém pode matar divindades pois vivem dentro que constroem altares e santuários para barganhar por prosperidade, salvação, saúde, boa colheita, do retorno em três dias dos amores idos. Porém, o maior medo dos barganhadores, ainda hoje é não serem acolhidos bem, lá onde a Coisa os leva! Lá onde ninguém sabe muito bem.
É bem verdade que nós, curiosos medrosos criativos, sempre barganharemos com os deuses em busca de respostas para as perguntas que nos assustam desde o tempo em que temíamos os urros, uivos, garras, caninos, asas, chifres e lógico, a escuridão.

segunda-feira, 25 de julho de 2011


Foto: Natural History Museum / London / UK
 Quando vemos o cenário de um massacre ruidoso contra pessoas comuns, muitas vezes há no centro, seja no planejamento ou atuando como agente, a figura de um caudilho que afirma estar atuando em nome de Deus, preservando antigas tradições e outros valores subjetivos.
Na maioria dos casos onde há a presença de um enviado sádico sanguinário, existe sempre um deus onipresente, vingativo e ciumento, sustentado por alguma escritura cheia de certezas. Quando se trata de um estado totalitário ateu, é um ditador ególatra que ocupa esse lugar, postando-se num altar ideológico se fazendo passar por divindade.
Já em sociedades onde as tensões multiculturais não são capazes de erguer muros de arame farpado separando os santos dos sujos, podem surgir os que se autoproclamam guardiães da moralidade, defensores da família, que em nome de um professo fundamentalismo agem como vigilantes invasivos da vida privada dos que se mostram tanto emocionalmente dependentes da aprovação divina, quanto ávidos por alcançarem uma imediata felicidade material terrestre, um pouco antes da celeste.
É possível que seja deste império de certezas que se originam as ditas “razões justas” para discriminar, privar outros das liberdades e até matar, sem que haja crise de consciência, pois acredita-se estar numa missão sagrada à serviço de uma guerra imaginária entre o bem e o mal, entre o puro e o impuro.
Essa fantasia do imaculado faz com que se veja os etnicamente diferentes, os ideologicamente contrários ou os religiosamente não cristãos, os sexualmente orientados por outros modos de pensar o gênero, como uma perigosa ameaça segundo um delírio coletivo que se vê como “raça escolhida”, “povo santo”, “herança divina”, “superioridade tecnológica e intelectual suprema”.
Nessa imagem distorcida de si mesmo e dos outros, acredita-se que tal estrutura de valores precisa ser protegida, santificada através do fogo ou lavada com sangue. Infelizmente, na longa lista histórica de atrocidades humanas, isso sempre foi assim e não é seguro para ninguém acreditar que um dia deixará de ser.

domingo, 5 de junho de 2011

O termo "salvar o planeta" expressa bem a visão romântica herdada dos hippies que ainda estavam ativos no final dos anos 70. É um conceito bonito, embora ingênuo demais, porque faz a gente imaginar o planeta como um coitadinho indefeso, incapaz de se defender dos ataques aos seus complexos sistemas de autossustentação.
Isto não é nem um pouco verdade e basta assistir com certa regularidade aos diversos programas no Discovery ou History Channel, dedicados a contar a trajetória do planeta desde os primórdios para perceber que a imagem que os seres humanos fazem de si próprios, como senhores do planeta e tutores das formas de vida existente é uma infantil visão religiosa arcaica, equivocada e tão antropocêntrica quanto irreal.
Bem antes da espécie humana existir, a vida no planeta já foi extinta pelo menos cinco vezes e isso foi causado por inúmeros fatores, alguns deles gerados por atividade natural do planeta, atividade geológica causando mudanças climáticas devastadoras. O próprio planeta, “consertou” isso favorecendo que muitas formas de vida se adaptassem à tais mudanças extremas, enquanto outras foram extintas.
Nosso conceito míope sobre quem somos e qual o nosso papel aqui, nos impede de perceber que a natureza, dispõe em abundância daquilo que temos muito pouco, ou seja: tempo. O que são 500 anos para natureza? O que são 10, 30, 50 mil anos para ela que pode se dar ao luxo de esperar centenas de milhares de anos para se recuperar depois que insensatez e estupidez levar a raça humana à autodestruição junto com suas divindades vingativas, seu suposto conhecimento, sua tecnologia, a necessidade de conforto que tanto adoramos e que a explosão de consumo que estamos vivendo agora, mostra não haver nenhuma disposição para abrir mão destas coisas, mesmo sabendo que é isso que está exaurindo recursos naturais em uma velocidade jamais vista antes. Então vamos ser sinceros! Tudo o que precisa ser feito hoje em matéria de sustentação, deve ser feito primeiro por nós mesmos, visando a nossa própria sobrevivência.



O planeta existe há bilhões de anos e sempre soube se virar por conta própria sem os humanos. A maior prova disso são as alterações climáticas provocadas em algumas situações por uma voraz produção industrial fora de controle. Isso que pensamos erroneamente ser um problema que está afetando a natureza é na verdade ela própria agindo para se livrar de nós! Somos a pior infestação que já viveu neste planeta, uma praga homo sapiens que se multiplica velozmente enquanto consome tudo de forma descontrolada, suja e que pode estar sendo exterminada por ela sem pressa e sem fazer muita força.
Quem olhar bem, verá que não é a natureza que precisa de salvação, é a nossa espécie. Não é o planeta que esta correndo risco de desaparecer e a humanidade.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Eurographics
Um mochileiro ocidental em visita à Pasárgada, decide conhecer o famoso Oráculo das Incertezas, situado na mais alta das três torres na área central da metrópole. Como não há elevadores, é preciso além de persistência, bom preparo físico para subir à pé os noventa e nove e meio andares até o topo, local onde o oráculo é consultado.
Uma vez lá em cima, o visitante passou a fazer inúmeras perguntas, algumas muito profundas, outras completamente sem importância. Para todas, ouvia sempre as seguintes respostas:

_ Talvez!
_ Não sei!
_ É provável que...!
_ É mesmo? Nunca ouvi falar!
_ Quem sabe!
_ Acho que sim...!
_ É possível que não!

Completamente frustrado, se sentindo trapaceado e visivelmente aborrecido por ter perdido 10.000 dáricos (€600) no inútil e cansativo trabalho de chegar até ali para nada, o visitante furioso, por uma última vez agora, pergunta por que existir de uma entidade superior e sobrenatural que aceita consultas, mas que simplesmente não sabe de nada?
E o oráculo responde:
_ Porque nada destrói tanto as oportunidades diárias de se tornar uma pessoa melhor quanto as certezas.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Agora que canções fofas destinadas a salvar corações estão na moda, lembrei de uma oração muito antiga proferida por piratas, não muito para que seus corações fossem salvos (coração de pirata não tem salvação), mas para que enquanto navegassem entre o oriente e o ocidente, não caíssem vítimas de possessões, sirenas ou dos vários tipos de pestes que dependendo da ocasião, costumavam assolar corações, até mesmo os de piratas.

Eurographics

SALVE REGINA

Sancta Regina Dulcis Mater
Rainha de todos os falsos ateus
Dos que ainda morrem por amor
Ad te Clamamus Pia Redentora
Livrai-nos dos engodos do amar
Cego de crer, lazarento de acreditar
Rogo-te Divina Celeste
Ensina-me a morrer sem lágrimas
Ou antes, mate-me sem apiedar-se
Amaldiçoe os beijos que dei em santidade
Com olhos fechados de tanto bem querer
Restaura em fogo e ferro rubro
Minha desavergonhada tara
A lascívia dos piratas e dos maus modos
Entregue-me à devassidão dos cães danados
Mantenha ereto meus desejos impuros
De genuíno Filii Hevae, canhoto e degredado
Retire à faca do peito aberto e dê aos corvos
Meu coração corsário crismado e puro
Jogue-o aos porcos como tributo
Benedicta Máxima, rogo-te!
Impeça que ele seja dado a quem professa me ter amor
Confina-me ao limbo, Doce Mãe dos Pretos Putos
Expulsa-me agora do paraíso das quase canduras!
Faça-me naufrago na escuridão, minha apostasia
Jamais permita que eu creia novamente nisto
Pois o sétimo inferno é mais doce

Junho 2009

sábado, 21 de maio de 2011

Fim de noite na ilha caribenha. Não se pode chamar apropriadamente de festa o ruidoso evento em andamento no quinto andar do Ambos Mundos. Mesmo que uma parte do que é comumente servido em festas esteja circulando livremente sobre bandejas reluzentes, a melhor definição para o que acontece neste exato momento no quarto 511 é: um encontro particular entre amigos, mas com a presença de convidados desconhecidos que não se importavam nem um pouco em receber dinheiro para estarem ali. O motivo não poderia ser mais apropriado: uma despedida. Não que alguém estivesse de partida para algum lugar distante, haveria apenas uma mudança de endereço dentro da mesma cidade. Por sete anos, o ilustre gringo velho que até esta noite, vinha ocupando o quarto, havia passado aqui, alguns dos melhores anos de sua vida, sendo que esta é a última noite dele no hotel pintado de rosa-flamingo.
Enquanto Bandeira pega seu Panamá e sai discretamente do quarto acompanhando o belo marinheiro catalão que acabara de conhecer, o velho gringo dança vacilante um tango silencioso com uma jovem nua chamada Dolores. Aproveito a distração dele para ler a capa do calhamaço datilografado em uma Hermes Cursiva preta, que estava sobre a escrivaninha. For Whom The Bell tolls, era o que aparecia centralizado em caixa alta na folha de rosto. Fiquei bastante curioso em saber quem poderia ser o merecedor da reverência do sino, mas a minha atenção começou a ser roubada por outra Dolores, uma que estava me dando entre outras coisas, um sorriso iluminado, um beijo nos lábios e um copo de absinto.

sexta-feira, 20 de maio de 2011


Por conta de algumas questões paralelas (Chico) e por estar navegando em mares nunca d´antes navegados (Facebook), abri o acesso à anônimos, mas ativei a moderação. Não gosto muito desse tipo de filtragem ou da manutenção de conteúdos fechados no Facebook ou no Twiter, mas no caso do Blog, se precisa ser assim, assim será.


Boa parte do que pode ser considerado fator de identificação social, vem do que é percebido e aceito coletivamente como realidade. No geral, poucos conhecem a fundo a origem de suas próprias convicções. Para tais, estas certezas se baseiam na tradição oral ou escrita (códice), que são registros antigos daquilo que se imaginou ter visto, percebido, ouvido, tocado ou sentido como resultado do que foi transmitido culturalmente através dos séculos por antepassados.
Isto quase sempre produz uma sensação de segurança e significado devido ao apego àquilo que cada indivíduo considera como razoavelmente explicável ou satisfatóriamente inexplicável. Jung acreditava que esse forte laço passional a uma doutrina, é motivado pela sensação de impotência em lidar com o luto, com a vulnerabilidade e desamparo quando se lida com a iminência da morte. É possível que também venha dessa experiência, as razões usadas para administrar o que é considerado real ou surreal.



Há muito tempo no passado, durante a organização daquilo que seria mais tarde conhecido por consciência, nossa espécie imprimiu nas paredes de algumas cavernas escuras, os primeiros documentos de como o mundo natural (real), se mistura ao que se "vê" nos sonhos (surreal), resultando nas primeiras noções de sobrenatural que serviria de base para a maioria dos conceitos religiosos adotados hoje como realidade.
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No documentário A Caverna dos Sonhos Esquecidos, o diretor alemão Werner Herzog deixa claro que a criatividade é o maior e mais valioso legado humano.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A cilada começa bem cedo na vida, com os Contos de Fadas subvertendo o que deveria ser uma condição flutuante, transformando-a numa obrigação asfixiante. Os arautos da felicidade imaginária inacessível, transbordam nossas cabeças com desejos que geram ansiedade, baixa resistência às frustrações, medo e culpa. Com imensos holofotes, eles ampliam nossa tendência para fazer comparações, o inferno da busca insana pela felicidade permanente, o nome dado aos bois que se come, come, sem jamais saciar a fome.

=(0y0)=



 
O Blogger passou o dia todo ontem com um problema que travou meu acesso aos posts e  leitura de comentários. Como se isso não bastasse, algo aconteceu que deletou o texto e o vídeo que eu havia postado, mas antes que isso acontecesse, vi que alguém chegou a comentar. Infelizmente não consegui ler o que foi publicado devido ao paw que citei acima. Peço desculpas a todos e aproveito para postar a microcrônica novamente.

sábado, 7 de maio de 2011

InMagine



































Primeiro, pensei ter ouvido um soluço, depois juntei as sílabas e o que veio audível pela segunda vez, foi um nome sussurrado_ Elisabete. Amiga de muitos anos, das festas de aniversário dos nossos filhos, das férias juntos na casa em Maricá. Então em sussurros, sem demonstrar surpresa ou reprovação, o deixei perceber que meu corpo também se alimentava daquele estímulo. O ato prosseguia sem pressa e perguntei-lhe direto no ouvido se já tinham consumado o que até ali parecia ser só um desejo. Ele jurou que não. Que tudo não passava de um tesão contido, incapaz de ir além da própria vontade. Tomei aquilo como verdade, de fato era. Depois da confissão em sussurros, começou a se sentir seguro ao perceber não haver em mim, sinal algum de desaprovação. Com isso, o nome dela sempre aos sussurros soava cada vez mais alto no quarto e a noite seguia passando brilhosamente acetinada até ter o seu fim em um sono calmo, brando e quieto.
Na manhã seguinte, à mesa posta, o café, a margarina light, a cesta de pão, a leiteira e uma paz engomada sem uma só palavra apontada como pergunta pontiaguda ou cobrança. Mais tarde, já na cama, imaginei que o nome Pedro pronunciado num sussurro, planaria leve até o ouvido dele. Confesso; jamais vi um homem tão possesso! Pulou da cama com boca espumando, acendeu a luz e aos gritos, começou a me acusar de tudo. Vestiu a primeira coisa que viu pela frente, passou a mão na chave do carro e saiu como um louco àquela hora da madrugada. Até agora não voltou.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Simplesmente não conseguimos mais viver sem moralizar a ordem natural que existe em volta. Fazemos isso usando conceitos subjetivos tais como “certo” e “errado” para supor que a natureza realmente necessita de algum propósito para existir. Para alguns, a única “função” da vida é manter genes pulsando. Sexo, fome, feromônios, garras, caninos, asas e polegares opositores, seriam apenas formas de garantir que eles se mantenham pulsantes.



Este curso que para todos os seres é uma regra, contradiz valores humanos criados como mera perfumaria para simplificar tudo como ações de um arquiteto antropomorfo que gerencia nossas atitudes tachando-as como “bem” ou “mal” o que também serve para disfarçar o forte odor dos nossos instintos. Essa visão reducionista da grande ópera feroz que nos cerca é apenas um resíduo do que foi imaginado há tantas eras pelos primeiros detentores de conhecimento humano, movidos certamente pelo medo e pela a impotência diante das manifestações naturais violentas que sempre presenciamos, buscavam tentar apaziguá-las com o sangue de sacrifícios em troca de proteção e boas colheitas.
Usando a mesma lógica xamã, falo da natureza como uma gigantesca divindade cega, surda e muda, que sem se dar conta, nos abalroa com o acaso, fazendo com que vida e morte (segundo nossos conceitos limitados) coexistam num sistema amoral randômico, onde uma não é o oposto da outra e sim parte de uma mesma coisa.

quarta-feira, 4 de maio de 2011







O que parece ser invisível aos olhos não precisa ser aceito como inexplicável, sobrenatural, além da compreensão humana ou produto da ação de anjos ou demônios!
A temerosa mente crédula, alimenta-se compulsivamente dos nossos medos mais profundos e com isso se torna facilmente convencida a curvar-se trêmula diante daquilo que ainda não conhecemos.
A mente agnóstica por sua vez é naturalmente curiosa e jamais se priva da oportunidade de buscar entender todo fenômeno como uma manifestação física da natureza,

=(OYO)=
theblackowlcult

Se conseguiu chegar até aqui, isso pode indicar não um dom especial, uma predestinação, mas um sentido aguçado para buscar enxergar coisas que estão muito além do óbvio.





domingo, 1 de maio de 2011

Ninguém acorda numa manhã comum imaginando que em certa altura do dia sofrerá um ataque interno, uma feroz autossabotagem, mas foi isso que aconteceu quando um grupo fortemente armado, formado pelos “piores defeitos” dele invadiu o que considerava ser um perímetro de segurança. Normalmente, isso acontece com certa frequência, mas sempre termina com o “defeito” sendo dominado e mandado de volta à uma área restrita dentro do “cinturão dos defeitos”. Já uma invasão conjunta, coordenada e de grande porte, até aquele momento nunca havia acontecido e o primeiro a cair foi o “bom senso” que era o sentinela responsável pela segurança. Ao ser pego de surpresa sem que pudesse reagir, deixou livre e escancarado o acesso para que invasão ocorresse facilmente.
Uma vez dentro do sistema, o grupo de mercenários procurava os alvos previamente determinados. A “paciência” foi morta na sala enquanto assistia à uma antiga novela mexicana que estava sendo reprisada. O “bomocismo” foi alvejado no banheiro quando fazia a barba. A "prudência" percebeu movimentos estranhos e teve tempo para se esconder no sótão. Ao ser descoberta, ainda tentou gritar por socorro, mas foi silenciada sem dó. A “credulidade” se fingiu de morta, imaginando que assim poderia passar despercebida, mas o truque não funcionou e ali mesmo deitada no chão foi mortalmente ferida.



Aos poucos, uma a uma, cada “qualidade” localizada, era capturada e exterminada sistematicamente pelo grupo de “defeitos”. Ao se reunirem na cozinha para checar a lista dos eliminados, notaram que faltava uma. Rapidamente realizaram uma segunda varredura no local e logo deduziram que ela havia usado uma porta secreta no porão para escapar. O grupo então traçou um plano de emergência, espalharam-se pelo perímetro e saíram à caça daquela que na maioria dos casos costuma mesmo ser a última a morrer.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ilustração: Ray Morimura
Dizem que na mesma época em que Sidarta Gautama estava para se tornar o Iluminado, havia no sul do país, um outro sadhu, também considerado santo, sábio e igualmente em condições de se tornar um Buda. Curiosamente, um não sabia da existência um do outro até serem convidados por um governador de província a fim de terem sua sabedoria testada, não por um experiente escriba ou um asceta, mas pela filha de 12 anos do regente. A menina se aproximou dos dois e colocou um pequeno cágado nas mãos de cada um deles, em seguida perguntou ao primeiro:
_ O que acontecerá se você o soltar?

_ Ele cairá. Afirmou o sadhu.
_ Solte-o! Ordenou a menina.
Ao abrir a mão, a criatura ficou pairando no ar.
A jovem em seguida, caminhou até Sidarta e fez a mesma pergunta. Ele olhou-a fixamente nos olhos e respondeu;
_ Eu não sei!
Ao dizer isso, a criatura que pairava caiu batendo com o casco no piso do pátio. Sidarta então devolveu para a menina o pequeno animal que havia permanecido seguro o tempo todo nas mãos dele.

(A Confraria dos Faunos)

domingo, 24 de abril de 2011

Não importa o quanto persigas compulsivamente um objeto muito desejado, é importante que ele seja uma quimera! É imprescindível que exista nele algo impossível de ser concluído, conhecido ou tocado. A alma humana não pode ser satisfeita por conquistas, ela simplesmente adoece quando isto acontece. Toda vez que alguém pensa estar suprido depois de conquistar algo muito desejado, é apenas uma questão de tempo até que uma inquietude saída das profundezas do nosso desassossego, acabe com esse estado artificial de paz que é a sensação de felicidade produzida por uma nova conquista. Somos sensíveis demais ao enfado, ao enjôo, ao tédio, ao “passamento” daquilo que prometemos a nós mesmos curtir para sempre.



 
É a busca incessante por algo que não temos que nos mantém vivos até que a morte nos ceife num jogo de dados. Enquanto isso não acontece é fundamental que se tenha na vida uma grande ilusão, quanto maior melhor! Uma utopia de estimação, necessária para que se acorde todos os dias desejando viver ou morrer em nome dela.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Certas particularidades da vida são mesmo muito curiosas. Há nelas uma espécie de Taoísmo às avessas que faz com que algumas pessoas jamais apredam que as histórias se repetem numa previsível e hilária roda cármica sem fim.



segunda-feira, 18 de abril de 2011

Foto: InMagine
Por hoje basta de caos! Basta de tentar entender, de ficar fazendo perguntas e procurando por respostas. Tentarei andar na calmaria dos dopados com palavras de esperança, olhar o dia sem guardar rancor, pensar um pouco antes de falar, comer mais devagar, reduzir o sal, pegar um pouco de sol, vestir branco nas sextas-feiras, dançar sem música, administrar melhor o meu humor, falar menos, ouvir mais, deixar de lado a mania de dar conselhos, não acreditar em promessas, não ter vergonha de ser egoísta, ter mais coragem para dizer_ não quero! Justificar menos os meus desejos, mas principalmente, aceitar que todas as coisas que mais desejo que durem, durarão bem menos do que desejo.


domingo, 17 de abril de 2011

A Flip vem aí e uma pesquisa encomendada pela Federação do Comércio do Rio de Janeiro, publicada em alguns jornais, diz que 68% dos brasileiros entrevistados preferem assistir televisão a ler um livro. O levantamento foi feito em 1000 domicílios situados em 70 cidades de 9 regiões metropolitanas, com apurações realizadas entre 2007 e 2010.

O preço dos livros praticamente nem foi citado como empecilho, sendo as principais razões: falta de hábito ou de interesse.
A respeito das preferências sobre cultura e entretenimento, a pesquisa apresenta o seguinte:

68%   Assistir TV.
14%   Ir à Igreja ou a algum culto religioso.
12%   Encontrar amigos / parentes em um churrasco / almoço
9%    Ir à barzinhos
8%   Futebol
4%.  Ir à restaurantes.

Na proposta do educador Marcelo Adnet, a solução foi dar um caráter interdisciplinar ao tradicional e denso conteúdo cultural disponível, transmitindo-o em uma linguagem atual bem mais acessível.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Há certa plenitude ao chegar num estágio em que se começa saber como elevar seus próprios índices de satisfação sem se tornar escravo de vícios ou refém de fatores externos. Quem sabe até, extraindo alegria de lugares dentro você próprio, que antes pensasse que fosse impossível extraí-la. Quando não há mais nenhuma dependência por aguardar algum sentimento que venha de alguém de fora, você mesmo acaba produzindo os motivos necessários para afastar os móveis, botar uma música qualquer para tocar e dançar sozinho, até que esteja plenamente satisfeito.




“Raramente uso na mesma frase as palavras: amor e felicidade. Não faço isso por descrença, mas por praticidade, por ter finalmente entendido que são palavras carentes de uma definição precisa e que talvez por isso mesmo, sejam usadas tanto precipitadamente, quanto fora de contexto.”

Keiko
(A Chama Azul do Santuário)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Nesta madrugada sonhei que comia a Diablo Cody numa mesa de sinuca. Num veludo azul onírico, isso não significa necessariamente que nos sub[metíamos] às 101 posições do Kama Sutra para no final extrair de todo esse esforço, míseros 30 segundos de [in]satisfação. No meu sonho, trepar com a Cody era um clipping nonsense, sonoro, colorido-psicodélico e editável, que podia ser nitidamente observado pelo movimento rápido dos meus olhos.
Havia uma imensa jukebox vermelha em chamas tocando “Maria” do Blondie. Também estava lá a Betty Page de batom carmim, corpete de vinil e salto 20 com meia dúzia de marinheiros em volta dela.
Julgando pelos arcos iluminados do aqueduto, o lugar parecia um boteco enfumaçado na Lavradio, cheio de putas e marginais da Lapa dos anos 30 que curtiam várias rodadas de pôquer com a tripulação da Enterprise.
O cara de linho branco e panamá que havia me dado um havana, alternava aparência entre Wilson Grey e Max Overseas! Ou seria Freddie Mercury? Sei lá, não lembro muita coisa, apenas que no sonho, a Diablo Cody me comia em cima duma mesa sinuca entre goles de absinto e grandes nacos de carne arrancados com dentes de porcelana. Nas costas nuas dela, duas tatoos coloridas que pareciam animadas em flash, uma era a Virgem de Gadalupe ardendo como anima sola, a outra, Mao dando um beijo na boca do Godzilla.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Quer se perceba ou não, chega uma hora que começamos a ficar mesmo repetitivos e em diversas situações como relações amorosas, profissionais, no que se faz ou no que se diz, há sempre o risco de ficar orbitando em torno daquilo que cultuamos como valores, temores, certezas ou esperanças. Por mais que não se queira cair na esteira da repetição e por mais que se tente inovar a cada segundo, parece não haver jeito, uma coisa ou outra começa a se tornar recorrente demais. Não que isso seja necessariamente ruim, se não for algo obsessivo. A escritora Elisa Lucinda tem até um monologo falando sobre de tentar olhar a temida rotina sob uma nova perspectiva, que é uma ideia defendida por muitos. Lógico, é preciso aceitar também que nem todo mundo deseja isso. Ao passo que alguns para minimizar o cansaço de ficarem ligados numa busca sem fim por alguma coisa nova, reduzem o tamanho do seu universo e passam a se repetir sem culpa, outros sentem necessidade de viverem periodicamente em função dessa procura por algo que ainda não descobriram o que é. Acredita-se que pessoas assim costumam se entediar com facilidade com suas conquistas e aquisições, tornando-se com a mesma facilidade, angustiadas e insatisfeitas.



Difícil dizer se essa busca constante supre ou não cada indivíduo. Pode ser que seja apenas um jeito encontrado para se conseguir viver com o fato de que no fundo, nada é totalmente novo e ainda que seja, é possível que não mude muita coisa naquilo que precisamos para nos sentir supridos. Mesmo para os que conseguem se tornar centenários ainda ativos, sabemos que uma boa parte do conteúdo desse tempo de vida foi gasto somente com repetições, mesmo quando o rótulo sugeria aqui ou ali alguma novidade.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Chegando ao bicicletário, ficou impossível não reparar no pacote peludo na cesta do guidão. Grande, bonito e rajado, ficou claro depois da boa receptividade aos afagos, que também era doce, amistoso, porém, nem tão jovem. Bastou um giro no corpo depois de colocá-lo no colo e uma olhada mais precisa, para revelar que na verdade, era ela. A partir de então, dois sentimentos surgiram repentinamente, um foi o desejo de levá-la para casa, o outro, o medo de que em vista de algumas urgências que estavam se acumulando durante o último ano da faculdade, isso poderia não ser uma boa. Ao certificar-se de que a “pessoa” amarela e branca com listras marrons não pertencia a ninguém daquele lugar, deixou com a gerência um número para contato, caso houvesse reclamação. E lá foram as duas, confiantes em tudo, como se aquele trajeto, pedalado entre o estacionamento do Walmart até o apartamento, tivesse sempre feito parte do dia-a-dia delas.
Com o passar dos meses, uma até já sabia o que a outra pensava, antecipando telepaticamente pequenas ações quase imperceptíveis. Um dia, quando as economias permitiram, o velho notebook branco passou a coexistir respeitosamente com outra engenhoca da maçã mordida. Daquele momento em diante era comum vê-las deitadas sobre o tapete da minúscula sala ao redor daquele retângulo luminoso. Enquanto uma tocava com a ponta dos dedos a tela brilhante, abrindo e fechando aqui ou acolá, páginas e mais páginas de leitura, sobrevoando alguma cidadezinha da Escócia, a outra parecia mais interessada em fotos de esconderijos de papelão e arranhadores.

Foto: Diane Howe / Europress
Assim, seguiam-se dias e noites sobre o tapete, em cima da cama ou no sofá, com a beladona de grandes olhos esverdeados, eriçando vibrissas para tudo que popapeava e girava dentro da telinha cheia do que se ver, ouvir, tocar e arrastar. Não foram poucas as vezes que a curiosíssima criatura balançava o rabo como se também estivesse entendendo os muitos emails engraçados enviados diariamente por um tal abbaco_120@yahoo.com.
Como fazia toda manhã antes de sair para o trabalho, tomou banho, trocou de roupa e colocou no pratinho o punhado de ração. Chamou a companheira de patas brancas para juntas, tomarem o café da manhã, mas não houve resposta. Na sala, sobre o tapete, o tablet ligado com o teclado virtual acionado e o editor de textos aberto. O cursor ainda pulsava logo depois de uma série de frases engatadas sem vírgulas e palavras sem acentuação. Em algumas poucas linhas escritas em Britannic Bold, no corpo 14, um bilhete carinhoso, que entre outras coisas, agradecia a dona do ipad, pela acolhida, pelo afeto e pela  amizade inesquecível nos últimos meses do que tinha sido o final de uma sétima vida.

domingo, 3 de abril de 2011

Houve um tempo que era preciso odiar comunistas porque eles “comiam criancinhas” e os comunistas por sua vez, odiavam religiosos, porque religião era o “ópio do povo"! O tempo passa, o que não passam são os "motivos justificáveis" para odiar o que cada lado considera repulsivamente ser o seu oposto. Recentemente o jornalista da Globo News, Caio Blinder, comentou que em vários lugares da Europa e nos Estados Unidos, está havendo uma espécie de ressurreição da direita extremista de língua furiosa. Segundo ele, o alvo desta vez, não são invasores comunistas, que já não representam mais tanta ameaça quanto durante a Guerra-Fria. O objeto das ações e declarações de ódio, agora, são imigrantes vindos de países pobres, homossexuais, evolucionistas e muçulmanos.
No Brasil, que vem passando nos últimos anos por uma grande reforma religiosa e onde uma parcela da sociedade é reconhecidamente sexista, racista e homofóbica, não é de estranhar que um dos citados no caso mais falado da semana passada, justifique o noticiado da seguinte maneira:

“O que a família Bolsonaro faz nada mais é do que valorizar conceitos e valores da família, valores éticos, valores morais e certamente isso incomoda muita gente”.

Usar valores morais e a defesa de bons costumes como desculpa para o “discurso do ódio” não é novo e foi feito com sucesso por nazistas, contando na época com franca aceitação popular. Aliás, basta conhecer um pouco de história, para perceber que reunir simpatizantes, sempre foi um dos objetivos do marketing da intolerância, seja ela religiosa ou política. Não é difícil cooptar mentes a procura de se encaixar em uma identidade coletiva. Dos jovens mártires de Alah, passando pela conhecida xenofobia das torcidas espanholas dirigida à jogadores estrangeiros, fazer do ódio gratuito um tipo de ícone pop de consumo para os que se consideram religiosamente “escolhidos” ou socialmente “superiores” não é incomum, principalmente em países formados por um certo pluralismo cultural.
Nos EUA, por exemplo, o que anda tomando corpo é usar a bandeira dos “valores morais e de família” para a propagação do ódio como uma causa cristã legitima. Na semana passada, o pastor da Igreja World Outreach Center, Terry Taylor, finalmente cumpriu a promessa de queimar o alcorão diante das câmeras de TV. Outra prova da insanidade alimentando ataques extremistas em “nome de Deus” contra “pecadores” pode ser vista pela cruzada da Igreja Batista Westboro, apelidada de “Igreja do ódio”. Para ela, homossexuais devem queimar no inferno porque como consta em seu conhecido slogan: “God hates fags” (Deus odeia veados)!


Para Ken Pagano, pastor da Igreja New Bethel, no Kentucky, andar armado não é pecado.

A julgar pela quantidade considerável de expressões de solidariedade e aprovação que os Bolsonaro receberam pela internet, inclusive com colaboradores "hackeando" e tirando do ar o site da Preta Gil ou postando textos bíblicos no site da ABGLT, não é difícil imaginar que tais promotores dos “valores morais e familiares” já não estejam semeando por aqui, algo que esperam colher no futuro.
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O Manual da Lavagem Cerebral:

Brainswashing - The Science of Thought Control
Kathleen Taylor, Oxford University Press, 2006


quarta-feira, 30 de março de 2011

Nem sempre é fácil falar sobre os frutos colhidos do acúmulo de anos que faz  as costas encurvarem, sem ficar pretensiosamente parecido com um mestre tibetano, um Yoda de 600 anos, dotado de uma fonte interior inesgotável de sabedoria, serenidade e equilíbrio. Já para os que querem evitar essa pretensão ao falar desses anos, é necessário reconhecer primeiro que o aprendizado pessoal, por mais promissor que tenha sido, se baseia numa experiência particular produzida por inúmeras tentativas desesperadas de corrigir os próprios erros e que tal conhecimento adquirido, por mais valioso que seja, pode não se encaixar muito bem na visão que outros tem sobre seus próprios problemas.
É preciso admitir quão tentador é se fazer passar por um monge zen de espírito centrado, conselheiro amável, possuidor de todas as virtudes do mundo, quando na verdade, debaixo de toda esta aparente paz, existe apenas uma alma cheia de cicatrizes com algumas lembranças esmaecidas, que toda noite se projetam no teto sobre a cama e teimam em não desaparecer completamente.



Domingos de Oliveira dirige e interpreta o próprio texto com o prazer de quem degusta uma iguaria rara.

terça-feira, 29 de março de 2011

Na comédia antirromântica Up In The Air, há uma cena onde Natalie Keerner, 23 anos, uma executiva em franca ascensão profissional, chora desesperadamente porque o noivo a quem ela venerava meteu-lhe o pé na bunda via torpedo. Ao desabafar sobre isso, ela filosofa_ Para nós (jovens mulheres urbanas), não importa o quanto se conquistou profissionalmente, pois nada disso vale a pena quando não se tem o “cara certo” ao lado.
Será mesmo? Será que não há nada mais importante na vida, que passar rapidinho por ela, correndo atrás do “cara certo”? Talvez haja pouca utilidade em debater sobre isso e só trouxe esse detalhe à tona porque li que a rede HBO/Brasil está produzindo mais um seriado baseado na vida de jovens mulheres urbanas e seus relacionamentos complicados.



O HBO inclusive, já havia produzido a série Alice e a Globo, Aline, dois trabalhos sobre o mesmo tema que sofreram baixíssimos índices de audiência. Taí uma coisa para pensar: se os números do Ibope indicam claramente que público de TV paga ou aberta não anda muito a fim de assistir isso, por que então alguns roteiristas não largam o estereótipo e trabalham em retratar jovens mulheres urbanas através de questões supostamente mais interessantes?

sábado, 26 de março de 2011

Um anúncio da revista ALFA prendeu minha atenção pelo trabalho de criação muito bem “briefado” e produzido. A mensagem aponta para uma publicação inteligente voltada para um “novo homem”, sensível, descolado, urbano, antenado. Daí eu pensei: pôoo!!! Que bacana! Comprei uma para conferir e percebi que não havia nela muita coisa diferente das outras revistas masculinas voltadas para o “clichê de sempre”, algumas publicadas até pela mesma editora da ALFA. Em resumo; mulher pelada, carro, futebol, brinquedinhos high tech, baladas, bebidas, roupas caras, ou seja, o mesmo velho papo de macho-alfa. Foi então que saquei o porquê do nome da revista.



Sexismo mode on. Para a ALFA, mulheres são coisas numa lista de coisas.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Deixar de falar de forma relativa e inteligente sobre certos assuntos apenas porque são complicados demais, corre-se risco de deixar escapar uma oportunidade valiosa. A de contribuir para eliminar da vida, o apego ao senso comum como bússola e desenvolver um corajoso senso critico para poder questionar melhor as opiniões distorcidas pelo preconceito fundamentalista que se alimenta justamente da facilidade proporcionada pela adoção de uma visão simplista do mundo e das relações humanas.



“Sair do próprio eu é um dos sonhos mais inteligentes que o ser humano pode ter.” Trocando longas e deliciosas cartas sobre esse assunto com mademoiselle Donega, parece que concordamos que a partir da balzaquianidade, as asas precisam ser negras, grandes e fortes.

domingo, 20 de março de 2011

Ninguém sabe o que é solidão até que a violação de um tabu transforma o transgressor num tabu. Poucas pessoas sentiram isso tão forte na própria pele quanto Darwin. Nascido e educado numa família anglicana, casado com uma mulher de profunda convicção religiosa e devoção, ele literalmente adoeceu e definhou ao longo dos anos em que escrevia sua controversa interpretação da natureza. A dúvida era se devia mesmo publicá-la, pois sabia que isso certamente desagradaria todo um sistema estabelecido que ainda hoje sustenta para milhões de crentes os fundamentos de uma identidade humana.
O interessante nessa história, é que a idéia de uma ancestralidade animal não é original a Darwin, mas encontra-se presente na obra Zoonomia (1792) de seu avô, Erasmus.



Nossa parcela animal, o elo que nos liga à natureza é também uma visão comum nas epopéias e mitologias milenares. Talvez as menções mais antigas dessa associação de uma origem comum entre bichos e pessoas, datem do início da idade do bronze, com os cultos que buscavam identidade num animal totêmico como ancestral e originador das pessoas que o adoravam.
Convivemos há tanto tempo com esse animal-interior que sequer percebemos que alguns elementos totemistas estão presentes atualmente no pensamento islamico-judaico-cristão, exatamente como constam no folclore e lendas do imaginário popular de muitos povos.

Anjos > humanos + aves
Lobisomens > humanos + lobos
Sereias > mulheres + peixes
Faunos > homens + bodes
Centauros > humanos + cavalos
Vampiros > humanos + morcegos
Baphomé (demônio) > mulher + dragão + bode
Minotauro > homem + touro
Demônios > humanos + dragões
Harpias > mulheres + águias
Anúbis > humanos + chacais
Bastet > mulher + gato
Ganesha > humano + elefante
Sun Wukong > humano + macaco

sexta-feira, 18 de março de 2011

O marco divisório. O momento exato do disparo que administra uma mudança que nunca cessa. A distância percorrida até um improvável lugar onde a linha bifurca detonndo a sequência de eventos que dará prosseguimento a transformação.
É ilusório achar que há um jeito de controlar ou deter o curso disso em proveito próprio. A vida é uma entidade amorfa, autônoma, mutante e muito mais resistente do que a gente imagina. Ela adora contrariar teóricos, mostrar que não depende da vontade humana e de uma moral criacionista para ser salva. Na maioria das vezes, na tentativa de querer alinhar uma ponta como solução, não se nota o desalinho que provoca em outra ponta que se encontra fora do campo de visão.



Para perceber o quanto a existência gira numa espiral sem começo, meio ou fim, é necessário se afastar um pouco da visão cartesiana que usamos como orientação e aceitar que os elementos que dão formas distintas a tudo que surge no periférico da vida, se fossem misturados ou invertidos aleatoriamente, ainda assim poderiam ser usados para contar uma nova versão da mesma história.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Definitivamente, alguns gatos marcaram minha infância. A maioria faz parte do Hannah-Barbera Studios e da Warner muito mais que os da MGM. A Disney, por tradição, costuma dar mais espaço para ratos, patos ou cães. Ainda tem  os da laia do Felix, Garfield, Fritz e o Haroldo, aquele “Grilo Falante” do Calvin que nem gato é, mas é como se fosse!
Ainda sobre os estúdios Hannah-Barbera, uma das coisas que me cativa no trabalho deles é o jeitinho de juntar roteiros geniais com música da boa, inclusive, criando bandas de acetato que ficaram famosas fora do vídeo. Josie e suas amigas gatinhas são um exemplo desta proeza envolvendo felinos.



No entanto, meu xodó sempre foi o Manda Chuva, o vira-lata alaranjado que tira onda de dandi bon vivant. Morando na rua e liderando uma gang hilária de fiéis escudeiros, o espertalhão arma altos golpes em cima do ingênuo Guarda Belo. Outra coisa bacana no desenho, é que na abertura, logo de cara rola um bebop jazz bem suingado, que na época me fazia ronronar de felicidade. Bons tempos... gatos queridos!

segunda-feira, 14 de março de 2011

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”
                                                                            
Carl Jung.

A matéria-prima da fantasia sempre intrigou Carl Jung que se dedicou uma vez a estudá-la. Ele acreditava que num passado longínquo, bem antes de haver sociedade organizada e cultura, a mente humana teria desenvolvido um tipo de habilidade para processar pensamentos básicos de um jeito mais avançado. Não era conseguir resolver criativamente problemas complexos, envolvendo uma adaptação de recursos disponíveis no ambiente para transformá-los em instrumentos. Geralmente isso é definido por inteligência e está longe de ser um privilégio humano, pois é compartilhada por outras criaturas. Jung falava de algo novo, algo especialmente humano, uma surpreendente organização e administração mental de situações não conhecidas ou vividas, buscando relacioná-las com algum evento passado, presente ou futuro a fim de dar sentido às coisas observáveis. Essa capacidade de fantasiar com um grau de sofisticação jamais vista e inventar um simulacro da realidade, ainda que absurda ou não vivenciada, causou uma revolução na percepção do que os humanos viam em sua volta.
Quando os primeiros xamãs passaram a fazer registros orais das experiências diárias de seu povo, realidade e fantasia se misturaram fazendo surgir o Pensamento Mágico. Numa época em que tudo na natureza era obscuro, o termo "magia", iluminava respostas como única explicação possível para manifestações tomadas por sobrenaturais, ações divinas ou demoníacas. Na lógica do Pensamento Mágico, os sonhos, por exemplo, eram vistos como um estranho “mundo invisível” ligado ao mundo real através de um estado de inatividade temporária conhecida bem mais tarde por sono.
Para a jovem mente homo sapiens, adormecer era o único modo de entrar nesse “universo paralelo”, se comunicar com pessoas, coisas, animais, elementos e receber deles informações codificadas. Para sair, bastava acordar. Aqueles que por razão de doença, ferimentos graves ou idade avançada, não despertavam, a lógica infantil do Pensamento Mágico explicava que haviam ficado presos para sempre naquele mundo cheio de mistério.



 O Pensamento Mágico e o "Pensamento contemporâneo" travam um duelo difícil na mente do personagem Nullah, um menino aborígene em Austrália (2008).


PARA DESCER MAIS FUNDO, 6 LASTROS:

O homem e seus símbolos, Carl Gustav Jung, Nova Fronteira, 1977.
Presente e futuro, Carl Gustav Jung, Vozes, 1991.
A negação da morte, Ernest Becker, Nova Fronteira, 1976.
Ano 1000, ano 2000: Na pista de nossos medos, Georges Duby, Editora Unesp, 1998.
O medo à liberdade, Erich Fromm, Zahar Editores, 1978.
Quatro gigantes da alma, Mira y Lopez, José Olímpio Editora, 1988.

domingo, 13 de março de 2011


























Não participei ainda de uma World Naked Bike Ride, mas ando pensando em como me sentiria ao me tornar mais um entre tantos nesse "Woodstock dos pedais" que ocorre anualmente no mundo inteiro. A meu ver, a presença da nudez ali funciona também como um protesto paralelo contra a ditadura insana do corpo sarado. Acho socialmente saudável quando um grupo se sente à vontade em exibir sem medo o que o atual padrão de consumo considera esteticamente reprovável.
Como nos projetos do genial Spencer Tunick, em que a nudez imperfeita de gente comum não está ali para produzir previsíveis estímulos eróticos de culto ao perfeito, a pedalada dos pelados, ainda que nem todos na versão paulistana, circulem de fato completamente nus, pode representar a liberdade de estar por um breve instante, despidos das camadas de convenções que nos obrigamos diariamente a vestir.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Quase ninguém percebe que tudo começa quando algo por dentro se torna demasiadamente importante até surgir um desejo intenso de querer compartilhá-lo. Esse desejo cresce com ilusão de que se encontrará alguém perfeitamente ajustado que tenha a capacidade de sentir na mesma medida essa importância. É dessa brutal expectativa que surgem também o proselitismo, as confrarias, credos, seitas, congregações, teorias tolas de supremacia, segregados e as paixões. O que segue a partir disso é o velho hábito de fazer promessas de união pactuadas através de juramentos ou rituais de posse.
Assim, enquanto uns tentam fazer do mundo inteiro, um só lugar, outros, buscam fazer de dois, o mundo inteiro. O que não sabem é que nem todos são capazes de viver das promessas que fazem. Seria bem melhor que não prometessem nada, pois nesse caso, o prometer se torna apenas um jeito de tentarem enganar a si mesmos.



''Esta noite, a maioria das pessoas chegará em casa depois do trabalho e encontrará cães pulando e crianças gritando. As esposas perguntarão como foi o dia e já tarde da noite, adormecerão.
Nesta hora, algumas estrelas sairão de seus esconderijos diurnos e uma delas, a mais brilhante, será a ponta da minha asa voando acima de todos."

Ryan Bingham (Up In The Air, 2009)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Não se sentir mais obrigado a adotar o velho padrão de comportamento relacionado às questões de gênero, pode ser uma coisa bacana, talvez, melhor ainda se virasse algum dia, realidade na educação de meninos e meninas, quem sabe até acabando de uma vez por todas com a pobre visão infeliz de que elas são de Vênus e eles de Marte.
Imagino se isso não seria um fator positivo nas relações futuras de um menino, que quando adulto, não sentisse mais necessidade de pensar ou agir como se vivesse num comercial de cerveja ou na capa da Men´s Health. Que em vez de dividir sua percepção entre “coisas de homem” e “coisas de mulher”, procurasse se aproximar do outro não apenas pelo gênero, mas pela pessoa e as singularidades dela. Que no campo dos afetos, pudesse ir além dos limites anatômicos, podendo escolher conviver livremente muito mais que com um corpo, com um homem ou uma mulher, mas com um indivíduo.



A UNESCO instituiu em 1999, o Dia Internacional do Homem, confusamente comemorado no mês de julho em alguns lugares e novembro em outros. Mas isso pouco importa, pois quem sabe, num futuro breve, tais datas sejam abolidas junto com o “8 de março” e no lugar delas se introduza o Dia Internacional das Pessoas.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O grande rebanho trêmulo é antigo e sempre esteve interessado numa barganha que favoreça a própria salvação. É uma rendição sem resistência aos que se valem de sofismas e falácias para montar o pano de fundo do que se entende por existência. No entanto, a única coisa que os move para um objetivo é o medo da morte, a iminência de uma perda tão aguda que precisa de um ufemismo para que não doa tanto.
Para os que se submetem a isso, basta um enigma, um paradoxo, uma equação de infinitas variáveis, para logo emitirem em coro um chamado de desamparo.



É a necessidade de uma voz que os mantenha de joelhos no mármore limpo e com o rosto voltado para o leste, como os súditos de um califado ou as que ainda moças, se entregam espontaneamente à uma sacerdotisa que antes de imolá-las, irá banhar-se no leite das mais dóceis, das que decididamente não sabem o que fazer quando encontram a porteira escancarada.
O uivo da alcatéia lá fora as faz entrar em pânico e a implorar aos céus por um border collie que as conduza direto para lâmina afiada, mas piedosa, do tosquiador.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Foto: Corbis
Savana africana, meio-dia, sol forte. Agachado atrás de uma moita ressequida, um velho leão solitário, já grisalho, faminto, mas incrivelmente paciente. Próximo dali, agachado atrás de outra moita, um jovem gato do mato, cheio de tiques, transpirando ansiedade. Vez por outra erguia nervosamente a cabeça para espiar e contar em voz alta o rebanho de antílopes ariscos, que desconfiando de tudo, bebiam inquietos às margens do lago. Quando o pequeno felino, contou a vigésima, o velho leão já meio puto, mas muito polido, resolveu intervir.

Leão – Amigo! Não me leve a mal, mas assim, vai acabar espantando a comida...
Gato – Vô nada! Ela tá muito longe e estamos contra o vento...
Leão - Cê tá aí faz muito tempo?
Gato – Tô nada! Cheguei agora... cumé que tá hoje?
Leão – Semana passada tava melhor... zebras saborosas, impalas enormes, javalis suculentos. Hoje é isso aí que cê tá vendo... meio devagar.
Gato – Tá mesmo meio fraco, né? E aí, já traçou alguma?
Leão – Quer saber? Não vale à pena nem sair da moita e se cansar à toa. Olha lá aquela corsa, já viu coisica mais raquítica? Tenho que confessar, realmente tá um horror!
Gato – É... tô vendo! Mesmo assim vou ficar por aqui e encarar...
Leão – Se fosse você nem perdia tempo, tô pensando até em ir lá pro outro lado, ouvi dizer que tá bom à beça...
Gato – Tá nada! De onde acha que eu vim? É o seguinte, por que a gente não junta nossos talentos? Você com seu tamanho, velocidade, força e eu com minha inteligência... a gente atacaria rápido, de surpresa, depois dividiria cada pedaço e blá, blá, blá, blá...
Leão (de saco cheio) – Tá bom, tá bom... cê tem razão! Eu topo fazer uma parceria contigo.
O Gato não parava de falar alto demais, gesticulava e se mexia tanto atrás da moita, que os animais começaram a fugir espantados. O leão, mais puto ainda, resolveu dar um basta naquela situação. Assumiu posição de ataque e começou a gritar.
Leão – Olha lá! Olha lá! Tá vendo? Nossaaaa! Que beleza!!
Gato – O que? Onde? Onde?
Leão – Não tá vendo não? Aquela grandona alí perto da pedra...
Gato – Onde?
Leão – Tá cego cara! Ali ó!
O gato chegou a um grau de ansiedade tão intenso que mais parecia uma pipoca, dando saltinhos para o ar na tentativa de conseguir um ângulo melhor daquilo que acreditava ser o banquete dos deuses.

Leão – Nosssaaa!! Que pernão! Que coxão! Putz! Que lombo!

Desesperado, quase à beira de um colapso por não estar conseguindo enxergar a melhor promessa de refeição da vida dele, o gato do mato num ataque de insanidade, se esqueceu quem era e correu para onde estava o leão, na tentativa de ter a mesma visão do paraíso que o colega de moita, ficando quase de rostinho colado ao do enorme primo.
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Savana africana, um pouco mais de meio-dia, sol forte. Enquanto degustava o ex-sócio falastrão, o leão na meia-idade aproveitava a sombra de um gigantesco baobá para filosofar.

Leão – A natureza é mesmo um espanto! Como pode um chato vivo ser tamanho porre, mas como petisco, uma iguaria tão nobre?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Ilustração: Frank Hockdan
Mesmo com o quarto escuro, percebi quando ela se materializou, agachando e chegando o rosto bem perto do meu travesseiro. Assim que teve certeza da dissipação do meu sono, acendeu o abajur e sentou-se na minha cama. Recostei-me na cabeceira para ouvi-la reclamar por quase um minuto das coisas que ela mesma havia falado no conto Nº 16. Ao terminar, ficou me olhando a espera de alguma explicação.
Custou, mas consegui convencê-la de que embora ela fosse simplesmente fruto da minha imaginação, eu não sou responsável pelas coisas que os personagens que eu criam falam e nem me dou ao trabalho de julgá-los por isso. Terminei dizendo que não me interesso pelas escolhas que fazem, não aprovo ou desaprovo o que pensam e na maioria das vezes, sequer sei o nome deles.
Isso tem acontecido com frequência sempre que interrompo uma história e passo algum tempo sem trabalhar nela. Eles surgem do nada, geralmente altas horas da noite ou de madrugada e quase sempre me acordam. O curioso é que nenhum até então, havia se tornado tão ativo. A observação sem qualquer intromissão é uma condição que me impus desde que resolvi transformar a vida deles em ficção. Falo “meus personagens” apenas por uma questão de semântica, pois na verdade, não os possuo. Eles não existem por minha causa, nem eu os considero meu alterego. Não são o que são para me agradar e nenhum deles é movido pelo que sinto, penso ou acredito. Não os controlo, apenas voyeurizo seus segredos e registro aquilo que eles mesmos desejam que eu mostre aos leitores.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Deitados no escuro, olhando para o teto, eu e Scully. Ela hipnotizando a lagartixa que parecia já meio tonta e prestes a despencar, eu esperando um sono que nunca caía. Em vez, de contar carneirinhos, achei mais divertido listar mentalmente pequenos prazeres e tentar medir o grau de satisfação que poderiam gerar ao entrarem como num jorro no sistema.
A lista mesmo nem chegou a ficar muito longa, mas dentre uns poucos pingados, não pude deixar de incluir as “respostas de abater perguntas cretinas”, algumas destas, além de invasivamente mal educadas, soam preconceituosas e por isso, bem que merecem sim uma resposta que além de servirem para enxaguar a própria alma, não fornecem propositalmente aos inquisidores o que eles mais querem: assistirem sua medrosa rendição ao menosprezo com uma justificativa acuada. No entanto, o melhor das respostas de silenciar cretinos, é que depois de educadamente disparadas sem agressividade ou rancor ideológico, arqueia no avesso da boca um sorrisinho irônico, invisível sim, mas extremamente retesado de tanta satisfação.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


Numa época anterior a fragmentação da sensação de passagem do tempo em números, quando nada ainda tinha nome, quando as civilizações não haviam sido pensadas, os humanos eram hordas peladas, soltas como crianças à mercê da natureza. Quando não havia sequer o “pensamento mágico” para inventar as palavras de explicação, o caldo químico que saltava de um neurônio ao outro numa cabeça recém homo sapiens, era pensamento abstrato, fluindo rápido, básico, desorganizado, infantil. Toda urgência era cio, fome, falo e medo. Em algum momento dessa madrugada, despertou-se uma autoconsciência que nos deu algum sentido, a linguagem nos deu parâmetros, a escrita nos deu beleza.
Tábua de argila, papiro, pergaminho, papel, ipad, oled, singularity. O registro em qualquer mídia das interpretações da realidade será sempre um jeito de desacelerar um pouco o pensamento para que possamos vê-lo.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ilustração: American Issues Project



























Chega uma hora que infância precisa acabar. Não tanto pelo desejo de que isso aconteça, mas pela necessidade de ganhar um tipo de resistência que não é possível ser obtida vivendo numa infância. Para uns, o fim da infância chega bem cedo na vida e para outros um pouco mais tarde, dependendo do tipo de cerca de proteção que existe em volta.
O fim da infância é o começo da consciência das próprias dores, da percepção da solidão, da constatação de que não adianta ficar se lamentando, pois nada é justo ou injusto. Na infância, aqueles que pensam ser protetores, administram periodicamente em uma mente pueril e sugestionável, doses concentradas de ilusão para impedir que a dor se propague numa forma mais intensa. Para cada realidade crua, há uma “mentirinha de amor”, a fim de amenizá-la, um eufemismo homeopático para tentar proteger o querido do sofrimento. Com o fim da infância, nota-se que o efeito desse alucinógeno, passa mais rápido a cada dose e logo surge a necessidade de achar novas “mentiras benignas” mais potentes para anestesiar o desconforto das frustrações e das perdas.
Reza a lenda que num lugar ainda não encontrado, há uma papoula mitológica de onde se extrai a felicidade. Acredita-se que o efeito analgésico desse ópio seja tão poderoso, que faria o sofredor esquecer por tempo indeterminado que dor constante é tudo o que existe.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Foto: Gil Rosza



































Acto I

Foi acompanhando minha avó em uma viagem que certa vez me apaixonei por uma cidade que nunca havia estado. O irônico nisso é que dias antes de partir, fiquei com a expectativa negativa de passar quatorze noites tediosas distantes do que costumava me manter entretido no meu quarto. A solução foi comprar um livro e tê-lo por companhia até a chegada do sono.

Acto II

Passei uma tarde inteira vasculhando prateleiras, tentando achar algum título novo entre Memórias do Cárcere e Cem Anos de Solidão, no final, o que havia na minha frente eram duas antologias poéticas. Só Deus sabe dos motivos que poderiam levar um garoto de 17 anos a ficar entre dois livros de poesia.
Na época, tudo que eu sabia sobre Vinícius ou Drummond, era o óbvio, aquilo que todo mundo que lia caderno B sabia, muito mais por isso do que por ter lido algo além do que era quase de domínio público. O aparente impasse foi resolvido folheando aleatoriamente as páginas tanto de um quanto do outro. Passados alguns minutos da degustação de versos ali mesmo no balcão da Veredas, levei Drummond para dormir comigo em Juiz de Fora.

Último Acto

Um gauche não sabe que é “gauche na vida”, até ler o Poema de Sete Faces e entender de uma vez por todas que viver é bom, mas está longe de ser justo. Anos mais tarde, já homem maduro e ter recentemente sobrevivido um longo período debaixo de escombros, passei a crer que se tivesse crescido com Vinicius na cabeceira, é bem possível que tivesse até cometido um desatino, em vez do desprendimento de perceber a tempo que minha própria companhia é sim tão satisfatória quanto ter no colo_ enquanto escrevo_ o sono manso de uma gata brava chamada Scully.
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Há alguns anos, doei o livro com muito gosto, para uma causa justa. Fiquei apenas com uma única página, para poder contar essa história.