quarta-feira, 7 de abril de 2010

E não é que tava a gente ali outra vez, deitados nus, atravessados na cama e com os pés na parede. Minutos antes eu havia botado D´yer Mak´er do Led Zeppelin pra tocar, sendo que bem antes de tudo isso, a intenção era mesmo chegar, transar e somente depois fazer um pene usando a receita que ela havia visto num programa de tevê. Em vez disso, ficamos ali olhando para o teto, conversando bobagens horas a fio. O tesão havia passado misteriosamente, mas a vontade de conversar foi o que ficou naquela pausa entre as horas. Falamos basicamente sobre coisas sem importância alguma, coisas do dia-a-dia, multas de trânsito, problemas no trabalho, menstruação atrasada que de repente cismou de chegar, algumas reclamações, resmungos, pequenas preocupações da semana que apenas na hora parecem sem solução. A cada coisa dita, íamos chegando a conclusão que não havia mesmo como escapar das repetições que nos cercam nessa vida urbana, pequeno-burguesa, tendendo a algumas insatisfações. Nós, acostumados a essa gaiola de onde vamos tocando a vida correndo atrás de abstrações coletivas como felicidade, identidade, prazer, significados, segurança, futuro, amores, projetos, conquistas, planos e outras coisas que em principio nos parecem de suma importância. Era isso que a gente chamava de repetições. Enquanto eu fazia o molho para o pene na cozinha, ela estava com o notebook na cama, caçando algum paquera secreto numa sala de bate-papo, e por mais que na semana procurássemos por alguma novidade, uma viagem de férias a um lugar que ainda não fomos, algo que nunca fizemos como ligar para um michê que deixou numero do celular no twitter, e chamá-lo pra fazer um “ménage”, quem sabe, sair pra comer comida tailandesa, adotar um gato de abrigo, ou qualquer coisa que logo, logo, passaria, gastaria, ficaria velha, chata, enjoada. Talvez o tédio seja a única verdade sincera sobre o que nos cerca e tentar vencê-lo fazendo alguma coisa, seja o que de fato traga mais frustração e mais tédio. Talvez seja inútil o teatro que criamos e encenamos diariamente para tentar driblar a constatação de que não há nada realmente novo sob o céu. Talvez aquilo que o Drummond chamou certa vez de “vida besta” seja afinal de contas, a grande essência do que compõe tudo o que vive e morre debaixo do sol.

segunda-feira, 5 de abril de 2010



Marés

Amares e desamares
Por conta de uma lua tonta
Que ora suspende, ora puxa
O lençol que cobre Gaia
Deitada nua, distraída sob nuvens
Uma hora sustenta meu barco
Outras, apaga meus rastros
Há mares de águas doces como eu
E desamares assustadoramente inquietas como tu

[ Grösza, Junho 2009 ]

quinta-feira, 25 de março de 2010

Não é de hoje que eu estou aqui tentando voltar pro lugar de onde nunca saí. Eu já fui pedra, eu já fui planta, eu já fui bicho, hoje eu sou uma pessoa envolvida pelas vidas que vivi. Eu faço parte do povo, que faz parte da terra que faz parte do reino, que não teve começo e que não vai ter fim. Isso faz parte de mim, que estou aqui, dercada de ouro por todos os lixos. No meio do mato, andando na rua. Em cima das nuvens ouvindo um disco. Do lado oculto de todas as luas. Eu faço parte do povo, que faz parte da terra que faz parte do reino que não teve começo e que não vai ter fim. Isso faz parte de mim que estou aqui!
[ O Futuro Me Absolve - Rita Lee ]