terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Um dia desses, juntei tudo que não uso mais, independentemente de serem ou não de estimação e joguei fora. Olhei aquela bagulhada indo embora, coisas que guardei apenas para empoeirar, sendo descartadas sem um pingo de dó. Pra falar a verdade, a sensação foi de alivio e de que o apartamento havia ficado até mais fresco e arejado.
De certa forma, isso abriu um precedente pra eu realizar outros tipos de faxina, como por exemplo, parar de perder tempo acumulando sofrimento em relação a expectativas irreais, vivendo ao som de "down em min" como se o último dia da minha vida tivesse com data e hora marcada. Uma das coisas que estou faxinando é parar de ficar esperando que alguém seja responsável por gerar dentro de mim aquilo que eu acho que me faz bem. Parar de cobrar a alguém por isso, me iludindo sistematicamente, achando que essa barganha romântica que todos perseguem por uma vida inteira é absolutamente necessária para dizer a eu mesmo que estou bem.
Se viver isso é mais uma das muitas escolhas que temos, então, opto por não mais a cada rompimento, a cada término de um ciclo, ficar esperando na fissura dum dependente químico, que um novo estimulo romântico positivo aconteça, para somente então, poder dizer a mim mesmo que estou bem. Quero estar muito bem sem isso, quero começar a tirar prazer, gozo, tesão e força para estar vivo de outras coisas que não sejam apenas um affair de cinema. Sinceramente espero que boa parte do meu bem estar saia do fundo do que eu sou, que isso venha da quantidade de amor próprio que consigo cultivar dentro de mim, sem ter de necessariamente importá-lo de alguém, enquanto se posa de carente, roendo ansiosamente as unhas, na espera disso chegar por Sedex.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ontem teve feijoada na casa da Maria Marta. Ê beleza! Beleza porque ela é o Mauro moram numa chácara em Matias Barbosa que deveria apropriadamente se chamar “Chácara do Céu”, onde mesmo com calor insano desse fevereiro de Hades, tava alguns graus bem mais suportáveis que no Rio de Janeiro. A segunda beleza é que mesmo sendo uma ruiva azeda, miúda de magrela, existe dentro da Marta uma tiazona Anastácia louca por fazer comida gostosa. Foi então que tudo que saiu da afrocozinha dela estava na medida da primazia dos mais nobres e exigentes orixás. Finalmente, o último beleza é que me libertei, pelo menos por algumas horas da sensação de estar pecando cada vez que colocava um torresminho crocante, com outras sutilizas bem temperadas da carne suína na boca, adocicadas levemente com pequenas porções devidamente fracionadas de uma caipirinha feita com a pinga artesanal mais cheirosa da região de Minduri. Isso sem mencionar a couve manteiga cultivada organicamente na horta da Marta, picada por ela, com maestria, cozida em azeite virgem e lógico, na farofa feita certamente com intenção de fazer-nos cair em tentação. Como a vida é bela, mas também é sacana, porque a gente nunca sabe o dia e nem a hora que vai morrer, deveríamos pelo menos uma vez na vida, enquanto ainda estamos vivos, nos render a algum culto gastronômico profano, e ontem na casa da Maria Marta, foi o dia do meu FODA-SE cerimonial, assim mesmo, com tudo maiúsculo, um foda-se determinado aos níveis um pouco elevados de tudo aquilo que o meu medico diz que vai me matar se eu não evitar todas as coisas que dão um prazer filha da puta de maravilhoso a essa vida que se a gente for mesmo parar pra pensar é muito, mas muuuuuito breve.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Existem coisas sobre essa imensidão sem fim que conhecemos por tempo que em algum momento da nossa vida curta, mostra o grande poder transformador que tem. Por exemplo, quando alguém consegue algo que desejou muito, que esperava há muito e que lutou muito para conseguir, seja lá o que for, no momento em que consegue a posse do "objeto do desejo", se sente completamente realizado o que por sua vez, gera uma grande sensação temporária de bem estar. Aos poucos, o pico desse bem estar chamado pelo senso comum de felicidade, vai passando, se apagando aos poucos como um foto exposta a claridade. A grande euforia da realização vai assim sumindo lentamente até restar apenas uma fina camada que chamamos de lembrança. É disso que é feito o passado. Não conseguir aceitar que passar é um evento comum a tudo que está exposto ao tempo, nos enche de frustração e depois nos coloca na busca desesperada por algo que traga de volta aquela sensação de realização. É uma busca que não cessa, pois a cada coisa nova conquistada, o tempo começa a comê-la pedaço por pedaço e mesmo o que julgamos ser sólido o bastante para resistir ao tempo, em algum momento mais a frente e contrario a vontade de vivos ou de mortos, será irremediavelmente transformado num outro tipo de passado que costumamos chamar de história.