quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Foi há uns anos atrás, quando ainda havia proximidade e muita vontade de que as coisas acontecessem no lirismo dos que não querem mais acordar duma animação suspensa lambuzada com sorrisos. Se não me engano, foi numa tarde dum domingo que parecia deliciosamente monótona. Ela me enviava fotos dum passeio em Embu das Artes, onde havia estado no dia anterior com o cunhado e a irmã, comprando artesanato. Em cima daquele embalo, a gente foi na “fanta” de como seria dormir e acordar na calma dum lugarzinho minúsculo, não muito longe de Sampa por causa do trabalho. Durante as buscas no Google, apareceu Pirapora do Bom Jesus e lá ficamos viajando no que faríamos se nos fosse possível uma vidinha besta como a que o Drummond falou uma vez, numa casinha baixa com uma fachada de cores fortes. Viver ali quase como refugiados entre o metropolitano totalmente conectado e um rural onde ainda dava-se “bom dia” aos passantes bem antes de conhecê-los. Hoje eu nem sei se teria sido bom mesmo ou se teria surgido o enfado, já que no MySpace dela surgiram outras variáveis, outras possibilidades, outros desejos, outras caras, outros papos, outras vontades, outras cidades e com isso um afastamento previsível do que imaginei que era nosso. Pirapora é hoje somente um ponto no Google Earth onde desejos que agora estão há anos-luz um do outro, brincaram numa tarde dominical de querer incandescer um céu estrelado.
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Imbarueri na língua do indio é o lugar onde o amor bebe água. Onde a felicidade amarra o sapato. Imbarueri é do lado do lugar comum. Imbarueri, a linha de trem, um circo marrom. Imbarueri, um simples pardal, revólver azul. Imbarueri, Paris é New York, Tietê, Tatuí. Imbarueri, um índio tupi, um lobo guará. Imbarueri, o galo cantou, o rato sorriu. Imbarueri, um táxi feliz, só eu e você. 'Cê num sabe o que acontece ali. 'Cê num sabe o que acontece ali. 'Cê num sabe o que acontece ali... [ Mauricio Pereira e André Abujamra ]

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ciclo é ciclo e ponto quase final. Não é Galileu, Newton ou Einstein. É ciclo e só. Nem sei se é roda carmica, calendário maia, telesena, papillon, mahabharata, causa-efeito, mas é cíclico... corre, corre, vai, vai, e depois volta. Não adianta contar números; é perda de tempo! Se for olhar no espelho; perde tempo, se for virar a cabeça pra trás; perde tempo, perde justamente aquilo para o qual não existe refil, porque é circular, é ciclo, é o imprevisto aleatório, randomizado, a deusa quântica do caos, o que sempre está sempre conosco agora, mas não promete que sempre estará. É passar uma vida inteira bem no meio daquilo que nunca vamos saber.
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Não é de hoje que eu estou aqui tentando voltar pro lugar de onde nunca saí. Eu já fui pedra, eu já fui planta, eu já fui bicho, hoje eu sou uma pessoa envolvida pelas vidas que vivi. Eu faço parte do povo, que faz parte da terra que faz parte do reino, que não teve começo e que não vai ter fim. Isso faz parte de mim, que estou aqui, cercada de ouro por todos os lixos. No meio do mato, andando na rua. Em cima das nuvens ouvindo um disco. Do lado oculto de todas as luas. Eu faço parte do povo, que faz parte da terra que faz parte do reino que não teve começo e que não vai ter fim. Isso faz parte de mim que estou aqui! [ Rita Lee ]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Toda essa carga autodestrutiva, essa autossabotagem, revelam coisas submersas logo abaixo da superfície da alma. No caso dela, uma visível baixa resistência à frustração fazia com que ela não conseguisse absorver, que por mais que se queira acertar, uma hora as coisas dão errado, se perdem da nossa vontade por vários motivos, não se concretizam na forma que a nossa expectativa ansiosa projeta. Mas ela não sacava isso, que é o erro quem melhor ensina. Então, ela segue agora em direção ao sétimo inferno, onde já vagam Dante e Virgílio. Quando cada coisa que espera-se que aconteça na perfeição deixa de acontecer, ela pira, se esconde e apanha a gilete! O pior é que ela também não sabe que quando a piração da baixa resistência às frustrações vira uma constante, o risco de entrar na Terra das Nove Luas (insanidade mental) e nunca mais conseguir sair de lá, também é uma forte possibilidade.
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Eu quis querer o que o vento não leva, pra que o vento só levasse o que eu não quero. Eu quis amar o que o tempo não muda, pra que quem eu amo não mudasse nunca. Eu quis prever o futuro, consertar o passado, calculando os riscos bem devagar, ponderado, perfeitamente equilibrado. Até que num dia qualquer, eu vi que alguma coisa mudara, trocaram os nomes das ruas e as pessoas tinham outras caras. No céu havia nove luas e nunca mais encontrei minha casa. [ Thedy Correia - Herbert Vianna ]