terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Tenho tentado colocar em prática de uns anos para cá, um programa preventivo de manutenção de amizades valiosas. Ele serve para tentar poupar um pouco os amigos do desgaste da obrigação de nos ouvir em momentos de angústia, durante longos períodos de insuportáveis reclamações. Já houve um tempo no passado em que bastava encontrar alguém para derramar sobre elas, temores, insatisfações, decepções, delírios e outros desassossegos duma alma-esponja que retém, retém o que há em volta. Por me considerar “bom ouvido”, acreditava que todo mundo também estava a qualquer hora, pronto e bem disposto para ouvir. Às vezes a gente esquece que cada um tem lá seus limites de resistência para ouvir continuamente certas coisas. Quando passa um pouco da hora, é provável que o ouvinte querido comece a ficar meio de saco, mas aguenta quieto em nome da velha amizade. A verdade é que ninguém é de ferro, como é verdade também que não faz mal nenhum quando uma pessoa que te adora toma a iniciativa em te oferecer voluntariamente um ombro amigo numa hora braba da vida. Talvez seja legal também saber cuidar desse amigo, tomando cuidado ao deitar no ombro dele, apenas a cabeça e não jogar o corpo todo.

sábado, 28 de novembro de 2009

Primeiro quero te dar um pouquinho de Cartola, mas antes, vou precisar proteger seu nome, por amor, em um codinome beija-flor!

[o mundo é um moinho] Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida e já anuncias a hora da partida, sem saber mesmo o rumo que irás tomar. Preste atenção querida, embora saiba que estás resolvida, em cada esquina cai um pouco a tua vida, em pouco tempo não serás mais o que és. Ouça-me bem amor, preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões à pó. Preste atenção querida, de cada amor tu herdarás só o cinismo, quando notares estás a beira do abismo, abismo que cavaste com teus pés.

sábado, 21 de novembro de 2009

Um amigo apareceu aqui ontem lá pelas tantas da noite. Estava meio agitado, cheirava a cerveja e dizia estar cansado das argumentações sem fundamento, usadas apenas para tentar provar quem tem mais razão. Se sentia cansado do ciúme fantasioso, do teatro para tentar fazê-lo se sentir culpado. Bastava pensar um pouco mais em projetos pessoais, para a falta de sintonia até pra decidir coisas banais, gerar uma feroz discussão inútil pelos mesmos motivos banais. O que alivia um pouco a minha culpa de estimação, é isso, é perceber os amigos da mesma geração se debatendo diariamente no mesmo tipo inferno doméstico.
As pessoas não são iguais, graças a Deus, nem suas histórias, obviamente. O que parece não mudar nunca nessa cotidiana intimidade pequenoburguesa é a insistência em usar, seja por comodidade, falta de criatividade, por formação, tradição, medo da solidão ou medo de sei lá o quê, o mesmo modelo popularmente aceito de coabitação. Em muitos casos, usa-se até as mesmas palavras com a mesma entonação_ “filhão”, “maridão”, “benhê”! O problema é quando alguns começam a pensar sobre suas vidas e se descobrem não compatíveis! Não à pessoa com quem dividem a mesma cama, mas ao papel que cada um decidiu representar dentro daquilo. Conheço casais que depois de separados e morando em casas diferentes, voltaram a se encontrar outra vez, mas como namorados apenas e sem chance alguma de voltarem a viver novamente debaixo do mesmo teto.