segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


Numa época anterior a fragmentação da sensação de passagem do tempo em números, quando nada ainda tinha nome, quando as civilizações não haviam sido pensadas, os humanos eram hordas peladas, soltas como crianças à mercê da natureza. Quando não havia sequer o “pensamento mágico” para inventar as palavras de explicação, o caldo químico que saltava de um neurônio ao outro numa cabeça recém homo sapiens, era pensamento abstrato, fluindo rápido, básico, desorganizado, infantil. Toda urgência era cio, fome, falo e medo. Em algum momento dessa madrugada, despertou-se uma autoconsciência que nos deu algum sentido, a linguagem nos deu parâmetros, a escrita nos deu beleza.
Tábua de argila, papiro, pergaminho, papel, ipad, oled, singularity. O registro em qualquer mídia das interpretações da realidade será sempre um jeito de desacelerar um pouco o pensamento para que possamos vê-lo.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ilustração: American Issues Project



























Chega uma hora que infância precisa acabar. Não tanto pelo desejo de que isso aconteça, mas pela necessidade de ganhar um tipo de resistência que não é possível ser obtida vivendo numa infância. Para uns, o fim da infância chega bem cedo na vida e para outros um pouco mais tarde, dependendo do tipo de cerca de proteção que existe em volta.
O fim da infância é o começo da consciência das próprias dores, da percepção da solidão, da constatação de que não adianta ficar se lamentando, pois nada é justo ou injusto. Na infância, aqueles que pensam ser protetores, administram periodicamente em uma mente pueril e sugestionável, doses concentradas de ilusão para impedir que a dor se propague numa forma mais intensa. Para cada realidade crua, há uma “mentirinha de amor”, a fim de amenizá-la, um eufemismo homeopático para tentar proteger o querido do sofrimento. Com o fim da infância, nota-se que o efeito desse alucinógeno, passa mais rápido a cada dose e logo surge a necessidade de achar novas “mentiras benignas” mais potentes para anestesiar o desconforto das frustrações e das perdas.
Reza a lenda que num lugar ainda não encontrado, há uma papoula mitológica de onde se extrai a felicidade. Acredita-se que o efeito analgésico desse ópio seja tão poderoso, que faria o sofredor esquecer por tempo indeterminado que dor constante é tudo o que existe.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Foto: Gil Rosza



































Acto I

Foi acompanhando minha avó em uma viagem que certa vez me apaixonei por uma cidade que nunca havia estado. O irônico nisso é que dias antes de partir, fiquei com a expectativa negativa de passar quatorze noites tediosas distantes do que costumava me manter entretido no meu quarto. A solução foi comprar um livro e tê-lo por companhia até a chegada do sono.

Acto II

Passei uma tarde inteira vasculhando prateleiras, tentando achar algum título novo entre Memórias do Cárcere e Cem Anos de Solidão, no final, o que havia na minha frente eram duas antologias poéticas. Só Deus sabe dos motivos que poderiam levar um garoto de 17 anos a ficar entre dois livros de poesia.
Na época, tudo que eu sabia sobre Vinícius ou Drummond, era o óbvio, aquilo que todo mundo que lia caderno B sabia, muito mais por isso do que por ter lido algo além do que era quase de domínio público. O aparente impasse foi resolvido folheando aleatoriamente as páginas tanto de um quanto do outro. Passados alguns minutos da degustação de versos ali mesmo no balcão da Veredas, levei Drummond para dormir comigo em Juiz de Fora.

Último Acto

Um gauche não sabe que é “gauche na vida”, até ler o Poema de Sete Faces e entender de uma vez por todas que viver é bom, mas está longe de ser justo. Anos mais tarde, já homem maduro e ter recentemente sobrevivido um longo período debaixo de escombros, passei a crer que se tivesse crescido com Vinicius na cabeceira, é bem possível que tivesse até cometido um desatino, em vez do desprendimento de perceber a tempo que minha própria companhia é sim tão satisfatória quanto ter no colo_ enquanto escrevo_ o sono manso de uma gata brava chamada Scully.
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Há alguns anos, doei o livro com muito gosto, para uma causa justa. Fiquei apenas com uma única página, para poder contar essa história.