quarta-feira, 15 de setembro de 2010

 
Associated Press

A primeira vez que se encontraram foi em 97, quando ele fez um elogio satiríaco à bunda de uma das amigas dela e aparentemente por causa disso, a coisa acabou virando na noite seguinte, um ruidoso protesto na porta do boteco onde ele e os companheiros do curso de medicina costumavam tomar uns pileques.
A indignação dela evoluiu para um estágio mais ideológico, com quebra de CDs do É o Tchan e queima ritual de pôsteres da Carla Peres, além de juntar uma multidão em frente ao decrépito "pé-sujo" para vê-la subir numa mesa na calçada e fazer um discurso furioso contra o que chamou de “adoração imbecilizante de bundas balançantes”. Para fundamentar o ato de repúdio, citou de Olga Benário a Rita Lee, deixando claro com isso, que junto com as amigas, inclusive a tal que teve o traseiro ovacionado, pertenciam a uma elevada casta de jovens mulheres que se recusavam serem vistas como um "pedaço de carne". No fundo, ele suspeitava que a verdadeira razão daquilo nada tinha a ver com um suposto fervor neofeminista, mas sim com o fato dele não tê-la incluído na já citada "ode aos glúteos". Contudo, a certeza só veio mesmo treze anos mais tarde, quando se encontraram pela segunda vez, coincidentemente na clínica onde ele era um dos sócios. Ele a reconheceu prontamente, ao passo que ela, sequer suspeitou que aquele meio careca um pouco acima do peso, pudesse ser ele. Pelo formulário de serviço, ele ficou sabendo um pouco mais sobre ela. Advogada, 40, casada. Soube também que além de profundamente insatisfeita com a própria bunda, estava muitíssimo disposta a investir dezoito mil à vista numa cirurgia para implantar 400ml de silicone em cada lado.



segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um dia Nietsche delirou e disse_ Deus está morto! Com o tempo, Nietsche morreu louco obsoleto e Deus que nunca ligou para o que pensam dele está mais vivo que nunca, faturando fiéis à doidado e graças a ele próprio passando muito bem de saúde. Certa vez El Che gritou_ Cuba está livre! Guevara morreu tempos depois bem longe de Havana como o último herói romântico e de lá pra cá, só quem tentou escapar da ilha pulando por cima das baionetas de Fidel, é que sabe que Cuba nunca foi livre. Segundo Marx o capitalismo poderia fazer muito mal! Hoje o capitalismo vai muito bem como modelo econômico oficial desde o Leste de Lenine à China de Mao.
Romantismo, credulidade, idealismo e porque não, algum fanatismo na mistura que num dado momento incendeia um estado de coisas para dar lugar a outros, assustando os que se negam a acreditar que nada dura, que sempre haverá algo vindo em nossa direção nem sempre com rosas, nem sempre com fuzis, nem sempre calado, nem sempre aos gritos, mas quase sempre com uma lâmina que irá ignorar o que queremos perpetuar e em seguida, fará picadinho das nossas crenças!

domingo, 29 de agosto de 2010

Não importa o quanto se persiga compulsivamente um objeto muito desejado, é importante que ele seja uma quimera! É imprescindível que exista nele algo impossível de ser concluído. A alma humana não pode ser satisfeita por conquistas, ela simplesmente adoece quando isto acontece. Toda vez que alguém pensa estar suprido depois de conquistar o desejado, é apenas uma questão de tempo até que uma inquietude saída das profundezes do desassossego que há em nosso núcleo, acabe com esse estado artificial de paz que é a sensação de felicidade produzida por uma conquista. Somos sensíveis demais ao enfado, ao enjôo, ao tédio, ao “passamento” daquilo que juramos que iríamos curtir para sempre.
É a busca incessante por algo que não temos porque ainda não o sabemos que nos mantém vivos até que a morte nos ceife num jogo de dados. Enquanto isso não acontece é fundamental que se tenha na vida uma grande ilusão, quanto maior melhor! Uma utopia de estimação necessária para que se acorde todos os dias desejando viver ou morrer por ela.