domingo, 25 de abril de 2010

Acordei antes de Clarice. Quando isso acontece, fico quieto olhando pra ela, pensando em todo esse tempo sem dar nomes, sem haver lugar, sem algo que nos definisse. À medida que o tempo passava, fui vendo as coisas mudando na vida de Clarice! Pessoas chegando e partindo, dois casamentos, um deles com filhos, uma carreira. Um dia parei e perguntei _ Por que não com a gente? Por que não juntamos de vez tudo isso num único lugar e damos a ele um nome? Ela respondeu_ Eu não sei...
Clarice não é o meu amor e nem eu sou o dela. Vivemos há pelo menos três décadas juntos nesse nosso jeito, um que não pede pra ser explicado, pois palavras demais atrapalham. A parte disto, o que existe de fato são duas vidas separadas por escolhas muito mais oportunistas do que desejadas, criando outras histórias que não fazem parte do nosso encontro. No meu caso, já não há mais ninguém e no dela, alguém que numa situação definida, costuma dizer que a ama.
Clarice acordou e o resto já sabíamos, eu sairia para comprar pães, enquanto ela prepararia o café. Depois, a continuação duma conversa nunca encerrada. No finalzinho da tarde, um "até breve" no forte abraço demorado e como sempre, Clarice tomaria um taxi até o aeroporto. A partir de então tudo seguiria do jeito que todos nós sabemos que algumas coisas costumam seguir.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tenho tentando reduzir um pouco o hábito de usar de psicologismo em certas coisas que comento. Falo em reduzir, porque não acredito que para algumas pessoas, seja possível eliminá-lo completamente do palavrório, afinal, há uma penca de gente morando dentro da minha cabeça, sublocando meus pensamentos e usando a minha boca. Às vezes, o psicologismo entra na parada como um recurso para tapar buracos estratégicos naquilo que não se quer aceitar ou como uma forma de justificar o que por alguma razão não está dando certo. Para tentar conseguir algum êxito nisso, tenho me esforçado para evitar generalizar certas situações, o que me expõe a inúmeras contradições, pois fazer generalizações e simplificações é um modo eficiente de buscar adeptos na ânsia de validar as próprias certezas até mesmo quando o objetivo é tentar mostrar que não se dá tanto valor assim a elas. No fundo é forte a ilusão de que a maioria das coisas acontecem exatamente do mesmo jeito para todo mundo. Num antigo blog já extinto há séculos, virava e mexia, eu vivia afirmando coisas com a boca cheia de convicções, como se a minha percepção de uma situação aparentemente comum fosse a mesma que a de todos. Seguia tolamente inflexível enquadrando tudo numa certeza irritante, até que um dia...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Algumas coisas sabemos logo de cara, já outras demoram um pouco mais. Foi assim que ele, no ano que complentou sessenta anos, tentava explicar à jovem com quem tinha um namoro recente, o motivo daquela viagem e porque era importante que ele a fizesse sozinho. Ela entretanto, além de não concordar, achava inútil ir até a Europa para perder tanto tempo numa peregrinação em busca de sabe-se lá o que. O que ele não havia dito a ela era que naquele momento passava por uma amarga crise financeira nos negócios e estava convencido de que fazer o Caminho de Santiago, sob duras privações, o ajudaria despir-se da crença no dinheiro como única fonte de segurança.
E ele foi sozinho, passando com certo êxito em cada etapa. Conheceu pessoas que jamais pensou que um dia dividiria com ele um prato de sopa de lentilhas, ouviu histórias inacreditáveis, chorou sozinho numa noite, bebeu do que não tinha no rótulo o nome Evian, teve bolhas nos pés, sentiu-se sujo, esfolou os dedos de tanto segurar seu cajado, pela primeira vez na vida dormiu ao relento, mas também achava que sentia uma ligação com algo que de fato o supria. Depois de muitas semanas conectado ao que já considerava divino e finalmente bem próximo de encerrar o percurso, resolveu conectar-se novamente ao não divino, plugando o iphone para recarregar na tomada duma casa modesta onde pernoitou.
E foi na manhã seguinte, na estrada, quando os Pirineus não eram mais barreira para conexões tecnológicas, que o aparelho no bolso da bermuda vibrou. Era o sócio com uma lista interminável das piores noticias sobre o que ele ainda não sabia. O que ele também não sabia era que aquela forte dor no peito e no braço, não era cansaço, que não adiantaria passar a bandana molhada na testa, nem tomar um gole do cantil. Ali, debaixo da sombra duma grande árvore, ainda não passava pela cabeça dele, que em alguns segundos, aquela bela paisagem rural na França seria a ultima coisa que veria.