segunda-feira, 12 de abril de 2010

Resumindo, o corte é um poderoso procedimento para conseguir a cura de algo que está dolorosamente infeccionado. O corte bem que poderia se enquadrar na categoria de certos remédios como sendo às vezes igualmente amargo e a menos que estejamos falando de sadomasoquismo, o corte não será nem um pouco prazeroso. Um corte é algo que em circunstancias normais ninguém buscaria por ele como algo desejável, ainda assim, quando necessário, é opção recomendável para se restaurar a saúde de algo que está se perdendo e levando outros com ele. Em certos momentos, um corte é a única coisa que poderia tornar saudável algo que está visivelmente adoecendo.
Quando estamos envolvidos em algo que há tempos pede um corte e não damos, seguimos em direção ao desastre presos inutilmente ao que pende já podre. Protelamos, tentamos arrumar, colar, remendar, fingimos que não estamos tão mal assim. Às vezes é o medo de que o corte resulte em perdas, o que é fato, pois geralmente é isso mesmo que o corte faz. Às vezes é o apego indevido ao que está necrosado, perdido, sem chances de recuperação, mas não percebemos porque paira sobre a parte negroazulada e malcheirosa da gangrena, uma miragem projetando um reflexo de como aquilo era no passado quando ainda havia coisas bonitas e saudáveis ali.
A sabedoria do corte é citada numa bela parábola de Jesus (Mateus 18:8) quando ele menciona que se algum membro teu está te atrapalhando ganhar a vida eterna, corte-o imediatamente. Sejam quais forem os motivos para se evitar o corte, basta uma analise experiente feita com frieza e praticidade, um olho clínico, para saber que em certos casos não há escolha, é preciso sem demora, submeter um insolúvel problema de estimação que nos acompanha há algum tempo, ao corte definitivo, à uma necessária e inevitável amputação.

“E o resto é o resto, o sexo é o corte, o sexo”. O Estrangeiro (Caetano Veloso)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

E não é que tava a gente ali outra vez, deitados nus, atravessados na cama e com os pés na parede. Minutos antes eu havia botado D´yer Mak´er do Led Zeppelin pra tocar, sendo que bem antes de tudo isso, a intenção era mesmo chegar, transar e somente depois fazer um pene usando a receita que ela havia visto num programa de tevê. Em vez disso, ficamos ali olhando para o teto, conversando bobagens horas a fio. O tesão havia passado misteriosamente, mas a vontade de conversar foi o que ficou naquela pausa entre as horas. Falamos basicamente sobre coisas sem importância alguma, coisas do dia-a-dia, multas de trânsito, problemas no trabalho, menstruação atrasada que de repente cismou de chegar, algumas reclamações, resmungos, pequenas preocupações da semana que apenas na hora parecem sem solução. A cada coisa dita, íamos chegando a conclusão que não havia mesmo como escapar das repetições que nos cercam nessa vida urbana, pequeno-burguesa, tendendo a algumas insatisfações. Nós, acostumados a essa gaiola de onde vamos tocando a vida correndo atrás de abstrações coletivas como felicidade, identidade, prazer, significados, segurança, futuro, amores, projetos, conquistas, planos e outras coisas que em principio nos parecem de suma importância. Era isso que a gente chamava de repetições. Enquanto eu fazia o molho para o pene na cozinha, ela estava com o notebook na cama, caçando algum paquera secreto numa sala de bate-papo, e por mais que na semana procurássemos por alguma novidade, uma viagem de férias a um lugar que ainda não fomos, algo que nunca fizemos como ligar para um michê que deixou numero do celular no twitter, e chamá-lo pra fazer um “ménage”, quem sabe, sair pra comer comida tailandesa, adotar um gato de abrigo, ou qualquer coisa que logo, logo, passaria, gastaria, ficaria velha, chata, enjoada. Talvez o tédio seja a única verdade sincera sobre o que nos cerca e tentar vencê-lo fazendo alguma coisa, seja o que de fato traga mais frustração e mais tédio. Talvez seja inútil o teatro que criamos e encenamos diariamente para tentar driblar a constatação de que não há nada realmente novo sob o céu. Talvez aquilo que o Drummond chamou certa vez de “vida besta” seja afinal de contas, a grande essência do que compõe tudo o que vive e morre debaixo do sol.

segunda-feira, 5 de abril de 2010



Marés

Amares e desamares
Por conta de uma lua tonta
Que ora suspende, ora puxa
O lençol que cobre Gaia
Deitada nua, distraída sob nuvens
Uma hora sustenta meu barco
Outras, apaga meus rastros
Há mares de águas doces como eu
E desamares assustadoramente inquietas como tu

[ Grösza, Junho 2009 ]