sábado, 15 de setembro de 2012




Foto: Pichaus

O ano era 1603 durante o xogunato de Tokugawa. Dois samurais se enfrentavam na manhã de um dia comum e a razão para estarem lutando era desconhecida. O que ficava nítido ao olhar para os guerreiros em combate é que ambos pareciam ter as mesmas habilidades e a mesma força. Atacavam e se defendiam sem que os observadores pudessem dizer quem estava em vantagem ou desvantagem.
Eles lutaram durante todo aquele dia até entrarem pela noite, onde em campo aberto, na escuridão só se podia ver as centelhas produzidas pelo choque de suas lâminas. Ao amanhecer os dois estava lá, sem dar o mínimo sinal de exaustão. Com isso, findou-se mais um dia, mais uma noite e a luta entre os dois estendeu-se até semanas.
Quando a luta completou meses sem um vencedor, as pessoas da vila foram aos poucos deixando de ver aquilo como um acontecimento e passaram a se acostumar com o tilintar das espadas dia após dia, noite após noite.
Ao findar o primeiro ano, algo diferente aconteceu. Ninguém ouvia mais o toque metálico das espadas e todos foram ao local do combate na esperança de saber o resultado daquilo que parecia interminável.
O que viram não foi um vencedor, nem um vencido, mas dois guerreiros paralisados em posição de ataque. Não estavam mortos, apenas postados um de frente ao outro de olhos abertos, músculos retesados, prontos para desferirem mais um golpe. Nada os tirava daquele estado, não se falavam, não respondiam. Permaneciam quietos e mudos, imóveis, um de frente para o outro.
O tempo passou e em torno dos adversários construiu-se uma praça até então, sem nome. Em torno da praça, a pequena comunidade agrícola crescia e se modificava.
Passados assim 400 anos, o vilarejo de outrora é hoje uma das maiores e mais modernas metrópoles do país. Foi quando numa manhã comum, um grupo de pessoas que naquele horário cruzavam a Praça dos Samurais presenciou algo insólito. Uma das estátuas, num movimento rápido, mudou sua posição e desferiu um golpe rápido em direção ao pescoço de seu oponente, que num movimento de corpo notavelmente veloz e preciso, usou sua espada para habilmente interceptar o golpe.

domingo, 2 de outubro de 2011

Adoro a ideia do encontro, seja para namorar, trocar carícias, transar ou compartilhar momentos bacanas. O problema que há séculos estraga a utilidade dos encontros não é o amor, mas o romance.
Aliás, para ser justo, não propriamente o romance, mas o modelo de relacionamento que o veste.
Devido a uma série de erros de definição, amor e romance são equivocadamente vistos como a mesma coisa, quando na verdade não são.
Para piorar, há uma imensa horda de carentes alimentados por folhetins e comédias românticas, acreditando piamente que viver um romance é a síntese do que existe de melhor na vida. É justamente nesse ponto que os envolvidos passam a ser ver como propriedade um do outro, em alguns casos, até com certificado, firma reconhecida e autenticada, tal como a gente faz quando compra um automóvel ou um imóvel.
Certamente, o tesão e encantamento nesse primeiro momento, não permite a ninguém enxergar muito bem o que significa virar propriedade de uma outra pessoa.


As passionalidades do romance: muda o figurino, a história é que não muda.

Ser tornar objeto de posse sob as bênçãos do amor, automaticamente produz uma reserva de ciúme que vai se acumulando num cantinho do fígado, local apropriado, já que o ciúme é uma bile negra, uma peçonha altamente tóxica que ao entrar na mente dos amantes é capaz de fazer o mais doce dos enamorados se transformar num agente disposto a tudo para não perder para outro, o seu objeto de afeto e caso isso aconteça, as consequências para todos podem vir a ser desastrosas, como pode ser medido pelo número de assassinatos de mulheres no Brasil, onde na totalidade dos casos, o autores são companheiros e ex-companheiros, gente como qualquer um, que atuando segundo modelo possessivo aceito, fez em épocas de paz, juras acetinadas, tirou fotos exibindo ternura, fez planos a longo prazo, deu caixa de bombom junto com coração de pelúcia, comemorou períodos de união e certamente jurou um amor que julgou que jamais terminaria.

sábado, 1 de outubro de 2011

Acabei de ler um artigo na Bravo falando sobre uma provável crise de alguns racionalistas de carteirinha. O texto cita o maior representante do chamado movimento Dogma 95, Lars Von Trier e seu último trabalho, o belíssimo apocalíptico Melancolia. Pessoalmente eu não acho que o racionalismo esteja em crise, talvez o que temos vivido hoje seja uma reorganização de um estado que sempre esteve presente desde o começo da civilização, onde crédulos em pânico buscam avidamente seguir alguma coisa que aplaque esse nosso pavor universal da aniquilação repentina ou que garanta refrigério pessoal ou familiar numa pós-existência material.
Depois que a rede deu a todos espaço e coragem para defenderem suas convicções e atrair prosélitos, a voz racionalista deixou de ser a única a ecoar pelos megafones (leia-se; editoras, jornais, radios, TVs e outras mídias) no vasto e medonho deserto daquilo que jamais teremos controle; o acaso.



Ao contrário do que foi no século XX, a “impopularidade” dos racionalistas atualmente, talvez se deva ao fato de que ninguém gosta muito de ser lembrado que a humanidade é extremamente vulnerável e não há promessa, ritual, oração, oferenda, reza forte ou pensamento positivo que possa salvá-la hora H.

sábado, 17 de setembro de 2011


Foto: Peter Schmid / Cortesia de Lee Berger / U. Witwatersrand / AP
O medo e a curiosidade sempre foram um forte fetiche entre humano. Imaginem só viver num mundo metade do tempo claro e a outra metade numa escuridão cheia de urros, uivos, garras, caninos. Foi nesse mundo-cão que curiosos monozinhos medrosos, gregários e curiosos começaram a andar eretos. Nesse vasto lugar perigoso, o problema de vida ou morte era saber o que fazer ao se perceber desprovido de garras, caninos, chifres, asas, e pior, com filhotes frágeis agarrados na teta, que levavam um tempão pra andar ereto e outro tanto pra mostrar que sabia se virar quase sozinho.
A solução foi botar para funcionar a cabeça que comandava uma mãozinha com polegar opositor e começar a inventar. Pegou uma pedra grande para quebrar semente dura até a pedra rachar em dois pedaços de lâmina afiada e cortante. Sem querer, alguém passou o dedo no fio e cortou o dedo, saiu sangue e powww!!!! Uma coisa vai encaixando na outra e depois de uns tempos de tentativa e erro, sacou-se que ser criativo pode ser mais poderoso que ter garras, caninos, asas, chifres, tromba ou enxergar muito bem na escuridão.
A inventividade, contudo, só resolvia uma parte do problema, ainda tinha o medo duma Coisa que todo mundo sabia que existia, só não sabia o nome e nem de onde vinha. Só sabia que a Coisa sempre vinha! Nem sempre pelas garras, pelos caninos, mas às vezes do corpo ativo falhando, do pelo embranquecendo, depois duma queda, dum corte mal cheiroso enegrecido, dum osso quebrado. Estando acordados ou dormindo a coisa vinha, pegava e levava para onde ninguém sabia.
A criatividade ajudou a dar um nome a essa Coisa e com o tempo, um monte de coisas iam ganhando nome. A criatividade é ótima para dar nomes e formular perguntas, mas é melhor ainda para inventar as respostas. Nessa época, o hábito de inventar respostas ainda não tinha nome, mas com o tempo passou a ter. Chamaram de totem, culto, credo, “pensamento mágico”, religião, filosofia, iluminação e recentemente surgiu um novo nome. Um que agrada aos que duvidam e desagrada aos que temem que ele mate deuses. Só que ninguém pode matar divindades pois vivem dentro que constroem altares e santuários para barganhar por prosperidade, salvação, saúde, boa colheita, do retorno em três dias dos amores idos. Porém, o maior medo dos barganhadores, ainda hoje é não serem acolhidos bem, lá onde a Coisa os leva! Lá onde ninguém sabe muito bem.
É bem verdade que nós, curiosos medrosos criativos, sempre barganharemos com os deuses em busca de respostas para as perguntas que nos assustam desde o tempo em que temíamos os urros, uivos, garras, caninos, asas, chifres e lógico, a escuridão.

segunda-feira, 25 de julho de 2011


Foto: Natural History Museum / London / UK
 Quando vemos o cenário de um massacre ruidoso contra pessoas comuns, muitas vezes há no centro, seja no planejamento ou atuando como agente, a figura de um caudilho que afirma estar atuando em nome de Deus, preservando antigas tradições e outros valores subjetivos.
Na maioria dos casos onde há a presença de um enviado sádico sanguinário, existe sempre um deus onipresente, vingativo e ciumento, sustentado por alguma escritura cheia de certezas. Quando se trata de um estado totalitário ateu, é um ditador ególatra que ocupa esse lugar, postando-se num altar ideológico se fazendo passar por divindade.
Já em sociedades onde as tensões multiculturais não são capazes de erguer muros de arame farpado separando os santos dos sujos, podem surgir os que se autoproclamam guardiães da moralidade, defensores da família, que em nome de um professo fundamentalismo agem como vigilantes invasivos da vida privada dos que se mostram tanto emocionalmente dependentes da aprovação divina, quanto ávidos por alcançarem uma imediata felicidade material terrestre, um pouco antes da celeste.
É possível que seja deste império de certezas que se originam as ditas “razões justas” para discriminar, privar outros das liberdades e até matar, sem que haja crise de consciência, pois acredita-se estar numa missão sagrada à serviço de uma guerra imaginária entre o bem e o mal, entre o puro e o impuro.
Essa fantasia do imaculado faz com que se veja os etnicamente diferentes, os ideologicamente contrários ou os religiosamente não cristãos, os sexualmente orientados por outros modos de pensar o gênero, como uma perigosa ameaça segundo um delírio coletivo que se vê como “raça escolhida”, “povo santo”, “herança divina”, “superioridade tecnológica e intelectual suprema”.
Nessa imagem distorcida de si mesmo e dos outros, acredita-se que tal estrutura de valores precisa ser protegida, santificada através do fogo ou lavada com sangue. Infelizmente, na longa lista histórica de atrocidades humanas, isso sempre foi assim e não é seguro para ninguém acreditar que um dia deixará de ser.

domingo, 5 de junho de 2011

O termo "salvar o planeta" expressa bem a visão romântica herdada dos hippies que ainda estavam ativos no final dos anos 70. É um conceito bonito, embora ingênuo demais, porque faz a gente imaginar o planeta como um coitadinho indefeso, incapaz de se defender dos ataques aos seus complexos sistemas de autossustentação.
Isto não é nem um pouco verdade e basta assistir com certa regularidade aos diversos programas no Discovery ou History Channel, dedicados a contar a trajetória do planeta desde os primórdios para perceber que a imagem que os seres humanos fazem de si próprios, como senhores do planeta e tutores das formas de vida existente é uma infantil visão religiosa arcaica, equivocada e tão antropocêntrica quanto irreal.
Bem antes da espécie humana existir, a vida no planeta já foi extinta pelo menos cinco vezes e isso foi causado por inúmeros fatores, alguns deles gerados por atividade natural do planeta, atividade geológica causando mudanças climáticas devastadoras. O próprio planeta, “consertou” isso favorecendo que muitas formas de vida se adaptassem à tais mudanças extremas, enquanto outras foram extintas.
Nosso conceito míope sobre quem somos e qual o nosso papel aqui, nos impede de perceber que a natureza, dispõe em abundância daquilo que temos muito pouco, ou seja: tempo. O que são 500 anos para natureza? O que são 10, 30, 50 mil anos para ela que pode se dar ao luxo de esperar centenas de milhares de anos para se recuperar depois que insensatez e estupidez levar a raça humana à autodestruição junto com suas divindades vingativas, seu suposto conhecimento, sua tecnologia, a necessidade de conforto que tanto adoramos e que a explosão de consumo que estamos vivendo agora, mostra não haver nenhuma disposição para abrir mão destas coisas, mesmo sabendo que é isso que está exaurindo recursos naturais em uma velocidade jamais vista antes. Então vamos ser sinceros! Tudo o que precisa ser feito hoje em matéria de sustentação, deve ser feito primeiro por nós mesmos, visando a nossa própria sobrevivência.



O planeta existe há bilhões de anos e sempre soube se virar por conta própria sem os humanos. A maior prova disso são as alterações climáticas provocadas em algumas situações por uma voraz produção industrial fora de controle. Isso que pensamos erroneamente ser um problema que está afetando a natureza é na verdade ela própria agindo para se livrar de nós! Somos a pior infestação que já viveu neste planeta, uma praga homo sapiens que se multiplica velozmente enquanto consome tudo de forma descontrolada, suja e que pode estar sendo exterminada por ela sem pressa e sem fazer muita força.
Quem olhar bem, verá que não é a natureza que precisa de salvação, é a nossa espécie. Não é o planeta que esta correndo risco de desaparecer e a humanidade.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Eurographics
Um mochileiro ocidental em visita à Pasárgada, decide conhecer o famoso Oráculo das Incertezas, situado na mais alta das três torres na área central da metrópole. Como não há elevadores, é preciso além de persistência, bom preparo físico para subir à pé os noventa e nove e meio andares até o topo, local onde o oráculo é consultado.
Uma vez lá em cima, o visitante passou a fazer inúmeras perguntas, algumas muito profundas, outras completamente sem importância. Para todas, ouvia sempre as seguintes respostas:

_ Talvez!
_ Não sei!
_ É provável que...!
_ É mesmo? Nunca ouvi falar!
_ Quem sabe!
_ Acho que sim...!
_ É possível que não!

Completamente frustrado, se sentindo trapaceado e visivelmente aborrecido por ter perdido 10.000 dáricos (€600) no inútil e cansativo trabalho de chegar até ali para nada, o visitante furioso, por uma última vez agora, pergunta por que existir de uma entidade superior e sobrenatural que aceita consultas, mas que simplesmente não sabe de nada?
E o oráculo responde:
_ Porque nada destrói tanto as oportunidades diárias de se tornar uma pessoa melhor quanto as certezas.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Agora que canções fofas destinadas a salvar corações estão na moda, lembrei de uma oração muito antiga proferida por piratas, não muito para que seus corações fossem salvos (coração de pirata não tem salvação), mas para que enquanto navegassem entre o oriente e o ocidente, não caíssem vítimas de possessões, sirenas ou dos vários tipos de pestes que dependendo da ocasião, costumavam assolar corações, até mesmo os de piratas.

Eurographics

SALVE REGINA

Sancta Regina Dulcis Mater
Rainha de todos os falsos ateus
Dos que ainda morrem por amor
Ad te Clamamus Pia Redentora
Livrai-nos dos engodos do amar
Cego de crer, lazarento de acreditar
Rogo-te Divina Celeste
Ensina-me a morrer sem lágrimas
Ou antes, mate-me sem apiedar-se
Amaldiçoe os beijos que dei em santidade
Com olhos fechados de tanto bem querer
Restaura em fogo e ferro rubro
Minha desavergonhada tara
A lascívia dos piratas e dos maus modos
Entregue-me à devassidão dos cães danados
Mantenha ereto meus desejos impuros
De genuíno Filii Hevae, canhoto e degredado
Retire à faca do peito aberto e dê aos corvos
Meu coração corsário crismado e puro
Jogue-o aos porcos como tributo
Benedicta Máxima, rogo-te!
Impeça que ele seja dado a quem professa me ter amor
Confina-me ao limbo, Doce Mãe dos Pretos Putos
Expulsa-me agora do paraíso das quase canduras!
Faça-me naufrago na escuridão, minha apostasia
Jamais permita que eu creia novamente nisto
Pois o sétimo inferno é mais doce

Junho 2009

sábado, 21 de maio de 2011

Fim de noite na ilha caribenha. Não se pode chamar apropriadamente de festa o ruidoso evento em andamento no quinto andar do Ambos Mundos. Mesmo que uma parte do que é comumente servido em festas esteja circulando livremente sobre bandejas reluzentes, a melhor definição para o que acontece neste exato momento no quarto 511 é: um encontro particular entre amigos, mas com a presença de convidados desconhecidos que não se importavam nem um pouco em receber dinheiro para estarem ali. O motivo não poderia ser mais apropriado: uma despedida. Não que alguém estivesse de partida para algum lugar distante, haveria apenas uma mudança de endereço dentro da mesma cidade. Por sete anos, o ilustre gringo velho que até esta noite, vinha ocupando o quarto, havia passado aqui, alguns dos melhores anos de sua vida, sendo que esta é a última noite dele no hotel pintado de rosa-flamingo.
Enquanto Bandeira pega seu Panamá e sai discretamente do quarto acompanhando o belo marinheiro catalão que acabara de conhecer, o velho gringo dança vacilante um tango silencioso com uma jovem nua chamada Dolores. Aproveito a distração dele para ler a capa do calhamaço datilografado em uma Hermes Cursiva preta, que estava sobre a escrivaninha. For Whom The Bell tolls, era o que aparecia centralizado em caixa alta na folha de rosto. Fiquei bastante curioso em saber quem poderia ser o merecedor da reverência do sino, mas a minha atenção começou a ser roubada por outra Dolores, uma que estava me dando entre outras coisas, um sorriso iluminado, um beijo nos lábios e um copo de absinto.

sexta-feira, 20 de maio de 2011


Por conta de algumas questões paralelas (Chico) e por estar navegando em mares nunca d´antes navegados (Facebook), abri o acesso à anônimos, mas ativei a moderação. Não gosto muito desse tipo de filtragem ou da manutenção de conteúdos fechados no Facebook ou no Twiter, mas no caso do Blog, se precisa ser assim, assim será.


Boa parte do que pode ser considerado fator de identificação social, vem do que é percebido e aceito coletivamente como realidade. No geral, poucos conhecem a fundo a origem de suas próprias convicções. Para tais, estas certezas se baseiam na tradição oral ou escrita (códice), que são registros antigos daquilo que se imaginou ter visto, percebido, ouvido, tocado ou sentido como resultado do que foi transmitido culturalmente através dos séculos por antepassados.
Isto quase sempre produz uma sensação de segurança e significado devido ao apego àquilo que cada indivíduo considera como razoavelmente explicável ou satisfatóriamente inexplicável. Jung acreditava que esse forte laço passional a uma doutrina, é motivado pela sensação de impotência em lidar com o luto, com a vulnerabilidade e desamparo quando se lida com a iminência da morte. É possível que também venha dessa experiência, as razões usadas para administrar o que é considerado real ou surreal.



Há muito tempo no passado, durante a organização daquilo que seria mais tarde conhecido por consciência, nossa espécie imprimiu nas paredes de algumas cavernas escuras, os primeiros documentos de como o mundo natural (real), se mistura ao que se "vê" nos sonhos (surreal), resultando nas primeiras noções de sobrenatural que serviria de base para a maioria dos conceitos religiosos adotados hoje como realidade.
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No documentário A Caverna dos Sonhos Esquecidos, o diretor alemão Werner Herzog deixa claro que a criatividade é o maior e mais valioso legado humano.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A cilada começa bem cedo na vida, com os Contos de Fadas subvertendo o que deveria ser uma condição flutuante, transformando-a numa obrigação asfixiante. Os arautos da felicidade imaginária inacessível, transbordam nossas cabeças com desejos que geram ansiedade, baixa resistência às frustrações, medo e culpa. Com imensos holofotes, eles ampliam nossa tendência para fazer comparações, o inferno da busca insana pela felicidade permanente, o nome dado aos bois que se come, come, sem jamais saciar a fome.

=(0y0)=



 
O Blogger passou o dia todo ontem com um problema que travou meu acesso aos posts e  leitura de comentários. Como se isso não bastasse, algo aconteceu que deletou o texto e o vídeo que eu havia postado, mas antes que isso acontecesse, vi que alguém chegou a comentar. Infelizmente não consegui ler o que foi publicado devido ao paw que citei acima. Peço desculpas a todos e aproveito para postar a microcrônica novamente.

sábado, 7 de maio de 2011

InMagine



































Primeiro, pensei ter ouvido um soluço, depois juntei as sílabas e o que veio audível pela segunda vez, foi um nome sussurrado_ Elisabete. Amiga de muitos anos, das festas de aniversário dos nossos filhos, das férias juntos na casa em Maricá. Então em sussurros, sem demonstrar surpresa ou reprovação, o deixei perceber que meu corpo também se alimentava daquele estímulo. O ato prosseguia sem pressa e perguntei-lhe direto no ouvido se já tinham consumado o que até ali parecia ser só um desejo. Ele jurou que não. Que tudo não passava de um tesão contido, incapaz de ir além da própria vontade. Tomei aquilo como verdade, de fato era. Depois da confissão em sussurros, começou a se sentir seguro ao perceber não haver em mim, sinal algum de desaprovação. Com isso, o nome dela sempre aos sussurros soava cada vez mais alto no quarto e a noite seguia passando brilhosamente acetinada até ter o seu fim em um sono calmo, brando e quieto.
Na manhã seguinte, à mesa posta, o café, a margarina light, a cesta de pão, a leiteira e uma paz engomada sem uma só palavra apontada como pergunta pontiaguda ou cobrança. Mais tarde, já na cama, imaginei que o nome Pedro pronunciado num sussurro, planaria leve até o ouvido dele. Confesso; jamais vi um homem tão possesso! Pulou da cama com boca espumando, acendeu a luz e aos gritos, começou a me acusar de tudo. Vestiu a primeira coisa que viu pela frente, passou a mão na chave do carro e saiu como um louco àquela hora da madrugada. Até agora não voltou.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Simplesmente não conseguimos mais viver sem moralizar a ordem natural que existe em volta. Fazemos isso usando conceitos subjetivos tais como “certo” e “errado” para supor que a natureza realmente necessita de algum propósito para existir. Para alguns, a única “função” da vida é manter genes pulsando. Sexo, fome, feromônios, garras, caninos, asas e polegares opositores, seriam apenas formas de garantir que eles se mantenham pulsantes.



Este curso que para todos os seres é uma regra, contradiz valores humanos criados como mera perfumaria para simplificar tudo como ações de um arquiteto antropomorfo que gerencia nossas atitudes tachando-as como “bem” ou “mal” o que também serve para disfarçar o forte odor dos nossos instintos. Essa visão reducionista da grande ópera feroz que nos cerca é apenas um resíduo do que foi imaginado há tantas eras pelos primeiros detentores de conhecimento humano, movidos certamente pelo medo e pela a impotência diante das manifestações naturais violentas que sempre presenciamos, buscavam tentar apaziguá-las com o sangue de sacrifícios em troca de proteção e boas colheitas.
Usando a mesma lógica xamã, falo da natureza como uma gigantesca divindade cega, surda e muda, que sem se dar conta, nos abalroa com o acaso, fazendo com que vida e morte (segundo nossos conceitos limitados) coexistam num sistema amoral randômico, onde uma não é o oposto da outra e sim parte de uma mesma coisa.

quarta-feira, 4 de maio de 2011







O que parece ser invisível aos olhos não precisa ser aceito como inexplicável, sobrenatural, além da compreensão humana ou produto da ação de anjos ou demônios!
A temerosa mente crédula, alimenta-se compulsivamente dos nossos medos mais profundos e com isso se torna facilmente convencida a curvar-se trêmula diante daquilo que ainda não conhecemos.
A mente agnóstica por sua vez é naturalmente curiosa e jamais se priva da oportunidade de buscar entender todo fenômeno como uma manifestação física da natureza,

=(OYO)=
theblackowlcult

Se conseguiu chegar até aqui, isso pode indicar não um dom especial, uma predestinação, mas um sentido aguçado para buscar enxergar coisas que estão muito além do óbvio.





domingo, 1 de maio de 2011

Ninguém acorda numa manhã comum imaginando que em certa altura do dia sofrerá um ataque interno, uma feroz autossabotagem, mas foi isso que aconteceu quando um grupo fortemente armado, formado pelos “piores defeitos” dele invadiu o que considerava ser um perímetro de segurança. Normalmente, isso acontece com certa frequência, mas sempre termina com o “defeito” sendo dominado e mandado de volta à uma área restrita dentro do “cinturão dos defeitos”. Já uma invasão conjunta, coordenada e de grande porte, até aquele momento nunca havia acontecido e o primeiro a cair foi o “bom senso” que era o sentinela responsável pela segurança. Ao ser pego de surpresa sem que pudesse reagir, deixou livre e escancarado o acesso para que invasão ocorresse facilmente.
Uma vez dentro do sistema, o grupo de mercenários procurava os alvos previamente determinados. A “paciência” foi morta na sala enquanto assistia à uma antiga novela mexicana que estava sendo reprisada. O “bomocismo” foi alvejado no banheiro quando fazia a barba. A "prudência" percebeu movimentos estranhos e teve tempo para se esconder no sótão. Ao ser descoberta, ainda tentou gritar por socorro, mas foi silenciada sem dó. A “credulidade” se fingiu de morta, imaginando que assim poderia passar despercebida, mas o truque não funcionou e ali mesmo deitada no chão foi mortalmente ferida.



Aos poucos, uma a uma, cada “qualidade” localizada, era capturada e exterminada sistematicamente pelo grupo de “defeitos”. Ao se reunirem na cozinha para checar a lista dos eliminados, notaram que faltava uma. Rapidamente realizaram uma segunda varredura no local e logo deduziram que ela havia usado uma porta secreta no porão para escapar. O grupo então traçou um plano de emergência, espalharam-se pelo perímetro e saíram à caça daquela que na maioria dos casos costuma mesmo ser a última a morrer.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ilustração: Ray Morimura
Dizem que na mesma época em que Sidarta Gautama estava para se tornar o Iluminado, havia no sul do país, um outro sadhu, também considerado santo, sábio e igualmente em condições de se tornar um Buda. Curiosamente, um não sabia da existência um do outro até serem convidados por um governador de província a fim de terem sua sabedoria testada, não por um experiente escriba ou um asceta, mas pela filha de 12 anos do regente. A menina se aproximou dos dois e colocou um pequeno cágado nas mãos de cada um deles, em seguida perguntou ao primeiro:
_ O que acontecerá se você o soltar?

_ Ele cairá. Afirmou o sadhu.
_ Solte-o! Ordenou a menina.
Ao abrir a mão, a criatura ficou pairando no ar.
A jovem em seguida, caminhou até Sidarta e fez a mesma pergunta. Ele olhou-a fixamente nos olhos e respondeu;
_ Eu não sei!
Ao dizer isso, a criatura que pairava caiu batendo com o casco no piso do pátio. Sidarta então devolveu para a menina o pequeno animal que havia permanecido seguro o tempo todo nas mãos dele.

(A Confraria dos Faunos)

domingo, 24 de abril de 2011

Não importa o quanto persigas compulsivamente um objeto muito desejado, é importante que ele seja uma quimera! É imprescindível que exista nele algo impossível de ser concluído, conhecido ou tocado. A alma humana não pode ser satisfeita por conquistas, ela simplesmente adoece quando isto acontece. Toda vez que alguém pensa estar suprido depois de conquistar algo muito desejado, é apenas uma questão de tempo até que uma inquietude saída das profundezas do nosso desassossego, acabe com esse estado artificial de paz que é a sensação de felicidade produzida por uma nova conquista. Somos sensíveis demais ao enfado, ao enjôo, ao tédio, ao “passamento” daquilo que prometemos a nós mesmos curtir para sempre.



 
É a busca incessante por algo que não temos que nos mantém vivos até que a morte nos ceife num jogo de dados. Enquanto isso não acontece é fundamental que se tenha na vida uma grande ilusão, quanto maior melhor! Uma utopia de estimação, necessária para que se acorde todos os dias desejando viver ou morrer em nome dela.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Certas particularidades da vida são mesmo muito curiosas. Há nelas uma espécie de Taoísmo às avessas que faz com que algumas pessoas jamais apredam que as histórias se repetem numa previsível e hilária roda cármica sem fim.



segunda-feira, 18 de abril de 2011

Foto: InMagine
Por hoje basta de caos! Basta de tentar entender, de ficar fazendo perguntas e procurando por respostas. Tentarei andar na calmaria dos dopados com palavras de esperança, olhar o dia sem guardar rancor, pensar um pouco antes de falar, comer mais devagar, reduzir o sal, pegar um pouco de sol, vestir branco nas sextas-feiras, dançar sem música, administrar melhor o meu humor, falar menos, ouvir mais, deixar de lado a mania de dar conselhos, não acreditar em promessas, não ter vergonha de ser egoísta, ter mais coragem para dizer_ não quero! Justificar menos os meus desejos, mas principalmente, aceitar que todas as coisas que mais desejo que durem, durarão bem menos do que desejo.